terça-feira, 19 de abril de 2011

Virada Cultural 2011 - eu fui!



Sim, sim, sim... mais um ano de Virada Cultural em São Paulo e sim, sim, sim... virei a Virada!



Esse ano, o 7º do evento, prometia ser excelente simplesmente porque teria Plebe Rude, minha banda favorita sem sombra de dúvidas! Mas porque ver apenas um show se existem mais 999 atrações rolando pela cidade?



Comecei vendo 'Beatles 4ever'. Esse grupo, pra quem não conhece (não os Beatles, please! porque se você nunca ouviu falar do 4 rapazes de Liverpool, bem vindo à Terra, E.T.!), além de se caracterizar com as roupas semelhantes às de cada época de cada disco, tocam as músicas com maestria. Impressionante como ficam parecidas as vozes deles com as dos originais. O mais incrível dessa apresentação na Virada Cultural foi que a mesma banda, os mesmos 4 músicos, tocaram as 24 horas do evento. Entre um disco e outro - tocados na sequência cronológica - paravam durante 20 ou 30 minutos e lá estavam eles de volta com toda energia para continuar a festa! Duas coisas me impressionaram muito: a Sitara - instumento indiano de 12 cordas - tocada com genialidade e a música 'Strawberry Fields Forever' que além da bateria tocada à 4 baquetas, ainda contou com uma mágica revoada de pombos num céu paulistano ao nascer do Sol... lindo!



Claro que depois de uma noite inteira andando mais do que o pagador de promessas, a passadinha no Mercado Municipal de São Paulo era certa para repor as energias. Como eram 4h30, nem as bancas de frutas estavam abertas. Comi no único estabelecimento que já havia acordado - suspeitíssimo, diga-se de passagem! Cafézinho e pão na chapa?! Nada, gentê! Tal qual uma junkie elouquecida, devorei uma coxinha - que na verdade de 'inha' só tinha o nome. Não sei porque me pareceu boa ideia naquele momento... acho que foi a noite não dormida que mexeu com meus miolos.



De quebra, enquanto degustava a coxa de pterodáctilo, assiti à corrida do GP da China - Vettel está ganhando demais... F-1 está começando a ficar chatinha, heim?!



De volta à Virada, mais Beatles e depois, palco rock, na praça Júlio Prestes. Começando o dia com metal - momento quando me perguntei 'o que mesmo estou fazendo aqui?'. Depois, Tihuana... show animadíííííííííssimo com direito a muito 'pula-pula-filha-da-pula-pula-pula'. E o Sol gritando lá no céu: 'Eu sou o Rei e torrarei todos vocês, rá-rá-rá!'. Água?! Por incrível que pareça, 3 ou 4 gentis seguranças que estavam na frente do palco apiedaram-se dos pimentões que fritavam na grade e distribuíram alguns copinhos. Taí coisa que eu nunca tinha visto! Achei bacana.



Ao meio dia, em ponto - e estava lá o Sol a pino, que não deixava dúvidas - o show da Plebe Rude começou. Aaaaaaaaaaaaah, sou tão suspeita para falar... o show foi maravilhoso, com direito a músicas como 'Consumo' e 'Nova era tecno' que não eram tocadas há anos e só os plebeus genuínos conheciam! A-do-rei! Show impecável, como sempre. E assim fechei minha Virada 2011... pelo menos lá!



Um aspecto interessantíssimo que devo ressaltar é, na verdade, o que interessa a esse blog: comida! Se nos outros anos a oferta de 'alimentos' era perigosamente rara, esse ano a oferta tornou-se (perigosamente) farta! Eu diria, inclusive que essa edição da Virada Cultrual pode ser chamada de Pastelada Pastelal... sim, sim, sim... dezenas, centenas, milhares de barracas de pastel se multiplicaram pelo Centro da cidade. Nunca vi tantas, tão perto umas das outras! Até me arrisco a dizer que havia mais barracas de pastel do que palcos pela cidade! Achei muito curioso, mas não a ponto de me aventurar!



Na mesma proporção, havia as barracas de caldo de cana e as abelhas - companhias inseparáveis! Meu amigo, empolgado com o clima de feira, pediu um copo de caldo de cana - corajoso! Calorento como ele só, pediu mais gelo para colocar em sua bebida. A senhora que o atendia, depois de 5 minutos para processar o complexo pedido, abriu uma caixa de isopor e, em meio a alguma sacolas suspeitíssimas, enfiou a mão - com a qual acabara de receber o dinheiro em pagamento ao copo de caldo de cana - dentre elas e puxou algumas pedras disformes de gelo. Oi?! Apressei-me em dizer que não precisava, que meu amigo já estava achando a bebida dele bem geladinha!! Que medo daquele gelo, gente! Poderia ter colocado a perder nossa Virada Cultural!



E que venha a edição 2012!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Revendo conceitos


Se, ao longo da vida, temos a oportunidade de rever valores e conceitos sobre os mais variados aspectos, com as comidinhas não é diferente.

Pare e pense: quantos sabores que você odiaaaaava na infância hoje fazem parte de seu menu?!

A vida vai mudando e os sabores se transformando. Há épocas que os doces são a alegria das papilas gustativas, em outras, aquela torta salgada se torna o manjar dos deuses na sua vida.

Alguns sabores, no entanto, desde sempre e para toda eternidade, ficarão de fora da sua vida. No meu caso, a cebola é, sempre foi e sempre será (acho!) minha inimiga número um, ainda assim, não consigo fazer arroz sem usar cebola (ainda que depois de pronto, lance longe as rodelas molengas... argh!). Quem explica?

Interessante é, de vez em quando, se dar a oportunidade de rever alguns conceitos. Isso porque se corre o risco de, por mera repetição da ideia, passar a vida toda sem se dar a chance de degustar certos sabores.

Dia desses fui convidada para um jantarzinho cujo cardápio era camarão na moranga. Não gosto de camarão - aliás, não gosto de nenhuma comida que me lembre que um dia foi viva... camarão com aqueles brutas olhos, 78589 patinhas e antenas gigantes? Affff! Mas fui de coração aberto apostando na moranga e nos amigos presentes.

A noite toda seguiu na maior alegria, bom vinho, bons belisquetes, bom papo, muitas risadas. E a moranga lá, assaaaando*. O cheiro, tanto da moranga quanto do recheio estavam maravilhosos e convidavam ao deguste.

Já na mesa, de prato servido, logo à primeira garfada me rendi: estava maravilhoso! Dei uma beijoca em mim mesma por ter me permitido provar novamente o camarão, depois de anos dizendo que não gostava. E saborzinho dele na moranga?! Combinação perfeita do sabor marcante do camarão com o adocicado da moranga.

Depois desse jantar, não posso mais dizer que não gosto de camarão. Aliás, acho que estou obcecada... quero mais! DEsde que, claro, o bichinho já não tenha mais antenas, patas e olhos!

Hey, que tal se permitir provar velhos-novos sabores? Você pode se surpreender!


*dica fundamental para quem pretende fazer camarão na moranga: ao invés de assar, por 3 encarnações, a dita cuja no forno convencional, coloque a bichina no micro-ondas por 30 minutos (abrindo de vez em quando para testar o ponto) e, por último, só para dar uma certa crocância, leve ao forno convencional, previamente aquecido, por uns 10 minutinhos. E pronto!

terça-feira, 29 de março de 2011

Cena de noticiário policial



Era uma noite sombria. Fazia frio, muito frio. Uma densa neblina cobria a cidade. Uma fina garoa deixava o cenário ainda mais soturno.

A cidade dormia, exceto aquela porta, no final daquela rua.

Uma fraca luz amarelada tremulava no teto, quase apagando. Ninguém ali, no entanto, parecia importar-se com a pouca iluminação. Alguns usavam óculos escuros, outros deixavam capuzes ou bonés descer sobre os olhos. Pareciam esconder-se de algo ou alguém.

Havia música, ou quase isso. Um pequeno aparelho tocava ruídos num volume muito baixo, quase imperceptível, talvez com o intuito de não chamar atenção para aquele lugar.

Havia cerca de 10 pessoas, aparentemente, todos homens, mas sob capuzes, seria difícil dar certeza. Alguns conversavam, outros estavam quietos em algum canto.

Não fosse o pequeno balcão no fundo do precário salão e as garrafas de aguardente num prateleira improvisada, ninguém diria que se tratava de um bar. As caixas com garrafas vazias de cerveja também serviam como bancos, os copos ficavam na mão e a garrafa cheia no chão.

Ambiente, elementos e pessoas compunham uma imagem simbiótica.

Tudo seguia numa estranha harmonia até que o barulho de passos, vindos do início da rua, quebraram os sons conhecidos. Todos se entreolharam como que tentando descobrir quem faltava. Não faltava ninguém, todos estavam ali.

Instantaneamente, o ritmo das respirações aumentou. A tensão de todos era nítida. A apreensão podia ser notada pelos goles cada vez maiores nos copos. A adrenalina, trabalhando para defesa do que quer que fosse, podia ser sentida no ar.

Lá fora, os passos se aproximavam. O destino parecia certo: o bar.

Ninguém, embora sedentos por descobrir quem vinha, tentava olhar na direção dos passos. Quase infantilmente, acreditavam que se permanecessem imóveis, talvez os passos desistissem ou mudassem o rumo. Mas os passos continuavam.

Já de frente para a porta, o dono dos passos, um homem ameaçadoramente corpulento parou por uns instantes e finalmente entrou. Ao primeiro passo do homem, os demais prenderam a respiração. Todos, ao mesmo tempo, silenciosamente, temeram tratar-se de uma chacina. Não havia o que fazer. Correr seria pior. Ficaram imóveis.

O homem seguiu até o fundo, encostou no balcão debruçando-se sobre ele para poder visualizar o pretenso dono do estabelecimento que se escondia sob o mal-ajambrado elemento.


O dono tentou ficar invisível, mas não pôde, então levantou-se:

- (...) - tentou falar, mas a voz não saía.


O homem então olhou para os lados para certificar-se de que ninguém o estava espreitando, aproximou-se do dono e numa voz grave, porém baixa, pediu:


- Eu quero lactobacilos... - deu um murro no balcão (que quase o desmontou) e, aumentando o tom de voz, completou - VIVOS!


De posse do seu Yakult, o homem saiu do bar e voltou pelo caminho que veio.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O resultado da espera

Ela acordou sozinha. Despertou quando o sono acabou, por isso, acordou feliz. Não apenas por isso, mas também e, principalmente, porque era o seu aniversário. Diferente de muita gente, aniversário, para ela era data esperada.


Todos os anos ela preparava uma super festa, ficava disponível para receber todos os amigos, todos os presentes, todos os votos de felicidades. Naquele ano, porém, decidiu fazer diferente: ficaria caladinha, quietinha, ia esperar pela lembrança de todos, até porque ela estava, assim, meio que adivinhando que a turma estava preparando uma festa surpresa, coisa que, por conta das suas festas, ninguém conseguia surpreendê-la, ela sempre marcava sua festa de aniversário com um mês de antecedência.


Seu marido saiu cedinho, levando as crianças para a escola. Ela ouviu tudinho, mas fingiu que estava dormindo... não queria forçá-los a não dar os parabéns pela manhã.


Não foi trabalhar. Não queria forçar o pessoal a dar os parabéns antes da festa.


Foi ao salão, queria ficar linda para sua festa surpresa. Mas foi a um salão diferente... não queria forçar o cabeleireiro a dar os parabéns antes da festa.


Passou o dia em casa:


- Engraçado ninguém ter ligado até agora.


Num instante desfez essa nuvenzinha de preocupação, afinal, era óbvio que todos estavam fingindo que esqueceram seu aniversário.


E assim passou o dia, preparada para a surpresa. E assim o dia passou. E nada.


Buscou os filhos na escola. Como seus filhos mentiam bem... qualquer um diria que eles nem tinham ideia de que era aniversário da mãe deles.


Já era noitinha quando o marido ligou pedindo desculpas: (Ufa! Já era hora!)


- Reunião de última hora... terei de substituir o chefe que está viajando. Melhor nem me esperar acordada. Nos vemos amanhã – como assim?


Ela começou a achar tudo muito, muito, muito estranho quando os monteiros marcaram 23h30! Será possível uma festa de aniversário em 30 minutos?


Adormeceu no sofá. Era fato: ninguém se lembrou do seu aniversário.


Acordou na cama. O marido a pusera lá. Achou que o dia anterior tinha sido um pesadelo. Olhou no calendário do celular e, infelizmente, era verdade, seu aniversário foi ontem. Chorou.


Depois de muito rolar na cama, rolou para fora dela e rastejou até o banheiro. Estava um bagaço. Olheiras chegando na bochecha, o penteado do dia anterior virou um pavor e, para completar, um torcicolo de matar.


Já passava das 10h, então, concluiu que o marido levara as crianças à escola.


Passou uma água no rosto, escovou os dentes e desceu vagarosamente as escadas. Zonza de tristeza e frustração, pensava em fazer as malas e sumir de casa. Mal teve tempo de completar o pensamento fujão quando, ao entrar na cozinha, deu de cara com uma multidão eufórica:


- SURPREEEEEEEEESA!


No ano seguinte e em todos os outros que sucederam, ela, dois meses antes do dia, anunciava a super festa que faria.

Não curtiu muito esse lance de festa surpresa. As surpresas podem ser surpreendentes demais.

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Desculpem-me pela demora na publicação... Está acontecendo tudo ao mesmo tempo agora na minha vida!!


quarta-feira, 16 de março de 2011

Espera


Sabe quando a gente fica esperando alguma coisa acontecer?

Ela está esperando.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Top 5: como dizer, sem dizer, que seu interlocutor está com o hálito vencido



1º Proponha um brinde - coisa mais desagradável é conversar com alguém cujo hálito causa engulhos, não?! Pior do que isso é encontrar uma maneira sutil de avisar o coitado sem que ambos caiam mortos de vergonha. Talvez, uma saída, não exatamente sutil, mas muito eficiente seja propor um brinde: 'Vamos brindar?!' 'Brindar? A quê?!' 'Ah, sei lá, à vida, ao Sol, ao vento, à queda da ditadura no Egito...' 'Ok, ok... vou pedir champagne' 'NÃO!' 'Prefere rizante?' 'Listerine!'. Se a pessoa não sacar, desenhe!

2º Ofereça uma balinha ou duas - o contexto não contribui para o pedido acima? Lance mão de um artifício baratíssimo, simplíssimo, não muito duradouro, mas melhor do que nada! A boa e velha balinha de hortelã. Sim, aquela que está esquecidinha no fundo da bolsa ou do bolso: 'Aceita uma balinha?' 'Não, obrigado/a!' 'Aceita sim, vai!' 'Acabei de escovar os dentes!' (medo!) 'Eu insisto!' 'Não mesmo' 'Eu imploro!'. Legal é entender a dica e aceitar de primeira.

3º Proponha jogar adivinhação - há casos, todavia, que nem mesmo uma balinha de Pinho Sol resolveria. Exemplo? Cebola! 'Comeu cebola no almoço?' 'ãããã... nã-não!' 'Comeu sim!'. A negativa não colou? Pra que negar aquilo que está tão evidente? Se seu interlocutor comeu cebola, não há Cristo, muito menos pasta de dente que seja capaz de minizar, muito menos de eliminar, o odor fétido provocado por essa iguaria - que na minha modesta opinião, nem deveria ser considerada comestível. Depois de uma afirmação dessas, não tem o que dizer... aliás, espera-se que o comedor de cebolas não diga nada, mais nada... nas próximas 24 horas - prazo mínimo para diminuição dos efeitos no hálito.

4º Dê uma dica - vizualize a cena: no meio de uma conversa alguém pergunta: 'Acordou agora?'. Há aqui duas possibilidades que levaram a pessoa a fazer tal pergunta: cara de sono ou bafo de onça. Para que não reste dúvidas, ressalte que a carinha está boa, não parece que acabou de acordar. Depois dessa, só resta a pessoa se mancar que seu hálito não está dos melhores.

5º Faça seu corpo falar - a linguagem corporal pode, em certas ocasiões, ser bem mais enfática do que qualquer discurso, pois não?! Pois então, se o seu interlocutor não aceitou o brinde de Listerine, não curte balinhas, insiste que não comeu cebola (ah, vá!), tem certeza que está com cara, e não hálito, de quem acabou de acordar e insiste em conversar, assim, beeeem de pertinho, quase te contando um segredo, parta para ação física: afaste-o com um leve empurrão, caso ele não entenda, saia correndo... não há mensagem mais clara do que essa!

* Dica de utilidade pública: tenha sempre um Trident consigo!

terça-feira, 1 de março de 2011

O que você comeu ontem?


Assim, de uma hora para outra a vida virou um caos!

Ele sempre se gabou de ter uma memória infalível. Lembrava-se de coisas dos tempos do berço e sua mãe confirmava tudinho. Sabia data de aniversário de to-dos os amigos: dia, mês e, pasmem, ano! As mulheres detestavam esse 'talento' porque botox nenhum poderia confirmar a mentirinha.

Além dessa habilidade em guardar datas, ele também era um livro de receitas ambulante. Desde criança observava sua mãe cozinhando e no momento seguinte já era capaz de repetir item a item, passo a passo da receita, por mais complexa que fosse.

Sua mãe achava uma gracinha, até porque não precisava mais anotar receitas ou recorrer ao velho caderno, herdado de sua mãe, para executar os mais mirabolantes pratos, era só chamar seu menininho e pronto!

Depois de crescido, percebendo quão encatadas as mulheres ficavam, passou a desculpar-se das gafes das datas preparando os pratos cujas receitas tinha de memória. Claro que, com o tempo, além de decorar a receita, passou a executá-las e aflorou ali mais um talento. Era um cozinheiro de mão cheia. E fez carreira.

Depois de um curso de gastronomia, feito meramente para formalizar sua aptidão nata, abriu um restaurantezinho que logo logo se tornou um suuuuuuper restaurante. Ele era fantástico e tinha uma equipe devotada. Todos seus subordinados tinham verdadeira adoração por aquele chef que sabia todas as receitas de cabeça... 'Ele nunca olha nem uma anotaçãozinha?', cochichavam os novatos que apareciam, 'Nunquinha!', era a resposta, sempre.

Tudo ia bem até que, de repente, assim, do nada, a vida virou um caos. Por quê?

Bom, um dia, como outro qualquer, ele estava na cozinha do restaurante, separando alguns ingredientes quando ouviu: 'Chef, o que o senhor comeu ontem no almoço?'. Silêncio. Um segundo, dois, três, trinta... nada... nenhuma ideia, nenhum lampejo, nem mesmo a mais vaga noção do que havia comido ontem. 'Como isso é possível?', pensou.

O rapaz que perguntou estranhou a demora e refez a pergunta. A resposta, no entanto, permanecia a mesma. Ele, o chef, não suportou a pressão da ausência de resposta. Abandonou e restaurante e saiu vagando pelas ruas. Sem rumo, sem pressa. Andava vagarosamente, enquanto se perguntava: 'O que eu comi ontem no almoço?'.

Está assim há um ano, numa clínica de repouso, tentando descobrir o que comeu ontem.

Temos de admitir, essa é uma pergunta um tanto quanto perturbadora, não?!

E você, o que você comeu ontem?

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Em tratamento


Ela tinha 20 e poucos anos, mas desde os 16 trabalhava no Mc Donalds. Era seu primeiro emprego. Sabe aquele momento da vida quando você quer ter seu dinheirinho para comprar seus alfinetes, não quer mais depender de mesada, pois já se acha dono do próprio nariz, sabe quando? Foi nesse momento que ela decidiu ir à luta em busca de um emprego.

Claro que vislumbrou algo descolado, moderninho, um emprego que tivesse a ver com seu estilo de vida. Começou, claro, pelos lugares que gostava de frequentar. Teve de excluir o casa que frequentava nas madrugadas dos fins de semana, afinal, usava identidade falsa... bufff... ela adoraria trabalhar onde se divertia. Também teve de excluir sua loja favorita, o salário que ela ganharia não pagava nem a fivela de um cinto. Coisa chata! E assim foi até chegar ao único lugar que restou em sua lista: o Mc Donalds.

A princípio achou a ideia simplesmente ge-ni-al. Imagina só passar o dia todo sentindo aquele cheirinho de hambúrguer e batata frita!! Depois de quatro semanas, já não achava tãããão genial assim. Não aguentava mais sentir aquele fedor de gordura saturada o dia todo no seu nariz. Um horror! Decidiu sair.

Seu pai, no entanto, sujeito daqueles rigorosos cuja lei é uma só, ponto final, na outra linha, parágrafo, achou a ideia de sua principal fonte de gastos ganhar seu prórpio dinheiro simplesmente fas-ci-nan-te! Mais fascinante ainda foi cancelar os cartões da menina como forma de fechar aquela torneira aberta. Quando a pimpolha disse que não aguentava mais e, por isso, iria sair, ele foi firme e disse 'uma vez no mercado, sempre no mercado!'. Bobagem... não colou, mas ela se convenceu quando ele disse que se ela não trabalhasse não veria o dinheiro dele. Bem convincente.

Diante dos argumentos do papi, ela achou que encarar o gordurê não era tão mal negócio. Com o tempo, aliás, o gordurê virou o menor de seus problemas, afinal, passados meses, seu olfato já se habituara. Triste mesmo era o trabalho mecânico, as falas decoradas... aaaaahh, as falas decoradas. Passados 6 anos isso tornara-se um problema dos grandes.

Já graduada, convidada para ser trainee em uma grande empresa, disse... não! Depois de um certo tempo, ela não queria mais sair do Mc. Achava que não conseguiria viver sem aquele cheiro, o trabalho mecânico e as falas decoradas. Viciou!

Ela chegou num ponto tão crítico que se recusava a tirar suas folgas. Vendeu todas as férias dos últimos anos... e nem era por dinheiro! A única folga que tirou, adivinha aonde ela foi? Ao Mc Donalds! Pior, não se conteve em ser mera cliente e, passados 5 minutos, já estava anotando os pedidos na fila. Foi tirada à força da loja por um segurança.

Depois desse episódio, o pai teve de intervir. Procurou ajuda e encontrou um grupo de apoio para ex-funcionários dos Mc Donalds. Frequentou algumas reuniões e convenceu sua filha a assistir algumas reuniões.

Passados 2 anos de encontros diários, ela finalmente parecia estar curada. Chegou a ir ao Burguer King no último fim de semana! A coordenadora do grupo então achou que já era tempo de liberá-la para uma vida normal:

- Hoje é um dia muito especial para nossa companheira. Depois de 2 anos, hoje, finalmente posso dizer, minha querida, você está curada. Pronta para levar uma vida normal, espontânea, livre!

(aplausos de todos)

Ela, comovida, apenas acenou em agradecimento. Emocionadíssima, levantou-se e foi à mesa pegar um copinho de qualquer coisa para se acalmar.

- Vou pegar um refrigerante, quer alguma coisa? - perguntou à sua companheira da direita.

- Quero sim, por favor: um refrierante pequeno.

- Batata frita acompanha? Refrigerante grande por mais 25 centavos?

E foi assim que a coordenadora suspendeu a alta da pobrezinha que continua seu tratamento até hoje até não sabe quando.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Cena pitoresca no congestionamento


Aaaah, o trânsito nos proporciona tantas histórias, não?! Inclusive pitorescas...


Dia desses, indo ao trabalho, em meio a um congestionamento 5km/h, logo a minha frente avisto um táxi. Normal, não fossem as atitudes que se seguiriam.


Estávamos na faixa da esquerda, numa avenida marginal. De repente, os carros da frente avançaram a ponto de ser possível mudar a marcha da primeira para segunda! A glória! O táxi, no entanto, ao invés de seguir reto, foi virando o carro para a esquerda em direção ao guard-rail. Fiquei aflita: ‘Será que o motorista dormiu, desmaiou, morreu?’. Quando faltava um milímetro para a lanterna dianteira esquerda dizer adeus ao mundo das lanternas inteiras, o motorista esboçou reação! Alinhou o carro, mas ainda continuou rente à grade, e parou. Tive quase certeza de que havia algo errado com o motorista, afinal, os carros/tartarugas da frente continuavam andandado/tartarugando, enquanto o táxi continuava parado.


Antes que pudesse confirmar minha suspeita, porém, o motorista abaixou totalmente seu vidro e colocou meio corpo para fora: ‘bom, vivo ele está, mas será que vai tentar se jogar no rio?’. Nada disso. Com meio corpo para fora e o braço esquerdo totalmente esticado, num movimento totalmente ninja, ele, num único golpe, arrancou uma goiaba - sim uma goiaba - de uma das árvores que tentam dar um toque verde à marginal.


De posse da goiaba, o motorista retomou o movimento. De trás, eu observava tudo. Meio pasma, afinal, o que leva uma pessoa a quase bater o carro por uma goiaba? E nem era uma goiabona daquelas que enchem a mão, era uma pobre goiabinha, filha de uma árvore que resiste bravamente à poluição, à chuva ácida, ao barulho, ao solo contaminado.


Analisando tais aspectos ambientais, foi inevitável pensar: ‘Que diabos esse homem fará com essa goiaba suja, contaminada, quiçá, radioativa?!’. Será que ele pretende comê-la??? Sem lavar??? Que tipo de fome leva uma pessoa a isso????


Não tive que esperar muito pelas respostas. Logo em seguida, na próxima paradinha, do festival do anda-e-para-anda-e-para-para-para, eis que o motorista ninja saca uma faquinha e passa a descascar a tal da goiabinha. Shelep, shelep, shelep... em três ou quatro passadas de faca, lá estava uma goiaba pronta para consumo - pronta, mas não necessariamente própria!


Ééééé, cada um faz o que pode para matar o tempo no congestionamento.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Ideias de verão 2: kit básico de verão



- Deixa ver:

  • Roupa limpa: confere.
  • Meias e sapatos: confere, confere.

  • Higiene pessoal: confere.
  • Garrafa de água mineral: confere x10.
  • Barra de cereal: confere x20.
  • Maçã: confere.
  • Chocolate: confere.
  • Salgadinho: confere.
  • Bolacha: confere.
  • Palavras cruzadas: confere.
  • Dominó: confere.
  • TV portátil: confere.
  • MP3 player: confere.
  • Lanterna: confere.
  • Pilhas: confere.
  • Corda: confere.
  • Boia: confere.
  • Bote: confere.
  • Remo: confere...

- Vai acampar?


- Não, não. Estou indo pra casa.


- E essa tralha toda?


- Ah, rapaz, é meu kit básico de verão. Da última vez que fui pra casa pela Marginal, com o dilúvio que caiu, fiquei ilhado por 8 horas. Depois da primeira hora, meu estômago grudou nas costas. Na segunda hora, a fome era tanta que meu sapato parecia estar muito apetitoso. Na terceira, depois de abocanhar meu sapato, a boca ficou seca a ponto de eu colocar a língua pra fora para beber um pouco da chuva (inclusive acho que a minha gastrite atacou por causa dos poluentes, viu?!). Na quarta hora, comecei a jogar jogo da velha no teto do carro comigo mesmo. Ganhei todas. Não tinha mais rádio porque, com o carro desligado, a bateria arriou na quinta hora. Na sexta, no completo breu, percebi que a água barrenta já estava no meu tornozelo e continuava subindo. Na sétima, boaindo no alagamento, me pelando de medo de morrer afogado, tendo em vista que não sei nadar, tentei usar o anúncio de lançamento de imóvel como remo... o que não deu muito certo. Na oitava hora, enquanto pedia perdão pelos meus pecados e autoencomendava minha alma a Deus, percebi que uma luz me chamava. Não, não era Deus, era o helicóptero dos bombeiros vindo me resgatar pela cestinha, molhado e fedido feito um gambá que tomou banho no Tietê. Depois desse dia, trânsito no verão, só com esse kit! Será que está faltando alguma coisa?

*

Outra ideia de verão? Aqui ó: http://claraemneve.blogspot.com/2010/12/ideias-de-verao.html

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Organizando um casamento em 5 atos



1° Ato - O sonho


- Quantos?!

- 600. E você?!

- 850!

- Então serão 1450 convidados. Uau, teremos de alugar o Maracanã para a festa. Será que a Basílica de Aparecida está disponível?



2° Ato - O pesadelo


- Deixa ver se eu entendi: você está me dizendo que cada um dos nossos convidados custará R$ 120?!

- Na verdade custaria R$ 125, mas pelo tamanho da lista de vocês, eu conversei com meu gerente que me autorizou esse super abatimento!

- Tá, deixa ver se eu entendi: você está me dizendo que a refeição de cada um dos nossos convidados nos custará R$ 120 por cabeça????

- Veja bem, esse é o Buffet mais requintado, disputado e glamouroso da cidade. Esse valor está sendo uma pechincha!

- Éééé, deixa ver se eu entendi: alimentar nossos convidados custará R$ 174mil???

- Alimentá-los sim, mas não se esqueçam da taxinha de aluguel do espaço mais a decoração... que ficam em torno de R$ 50mil...

- (...)

- Senhor... senhora...



3° Ato - A estratégia


- Não é possível que tenhamos 1450 pessoas íntimas para testemunhar nossa união.

- De quem foi a ideia estúpida de festejarmos naquele Buffet?

- Sua!

- Ah, é! Mas eu não tinha ideia de que custava tão caro...

- Amor, você viu essa Buffet no programa do Amaury Jr!

- Que, inclusive, deve ter cobrado para aparecer na festa! Que loucura! Esquece aquele lugar.

- Já esqueci, mas, sejamos francos: temos 1450 amigos e familiares?

- Hummm... não, né?! Vamos refazer nossas listas?

- Sim, mas vamos adotar alguns critérios: apenas amigos que conhecemos há pelo menos 5 anos, porque é o tempo que namoramos; apenas seus familiares que me conhecem e meus familiares que te conhecem e colegas de trabalho que frequentam nossa casa.



4° Ato - O resultado


- Quantos?

- Quatro: minha mãe, a tia Cotinha, a Fer e o seu Jarbas.

- Seu Jarbas?! Quem é esse?

- É o motorista da empresa que vem me trazer em casa de vez em quando. Segundo nossos critérios, do trabalho, só ele 'frequenta' nossa casa. E você?

- Três: minha mãe, meu pai e o Cabeça.

- Uau, ficou bem curta agora, né?!

- Não gostei.

- Nem eu.



5° Ato - A solução


- Então é isso: nosso casamento será no Buffet Master Blaster para 1450 pessoas! Que máximo!

- É, é sim... só não tenho certeza se todo esse povo vai aparecer.

- Por quê?!

- Ah, sei lá, amor... não é meio estranho cobrar ingresso pra participarem da nossa festa de casamento?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Batatando


- Batatinha quando nasce, se esparrama pelo chão...
- Se esparrama ou espalha a rama?

Tanto faz! Afinal, importante mesmo é que a batata está presente em nossas vidas das mais variadas formas: de musiquinha à refeição, de apelido à interjeição.

Assim, de pronto, não consigo imaginar um ingrediente mais versátil do que a batata. Seja da maneira mais simples ou da mais elaborada, acompanhando um ovinho frito ou um belo bacalhau, lá está ela.

Batata qualquer um, por mais juca que seja, consegue preparar. Quem não é capaz de fazer um purê?! Cozinha a bichinha, amassa, acrescenta sal e azeite/manteiga e tã-nam: uma comidinha rapidinha para matar aquela fome que pintou num dia de despensa desprevenida.

A partir daí, o céu é o limite! As possibilidades são infinitas: frita, dourada, assada, flambada, cozida, marinada. Há também opções mais violentas: aos murros, às pancadas, aos tapas aos beliscões. Sempre ao gosto (ou ao talento) de quem come (e/ou prepara).

Isso tudo pensando nela purinha. Quando se torna parte de uma receita, ninguém a segura! Minha versão favorita?! Nhoque de batata -digno de ser prato único, prato principal, estrela de qualquer almoço ou jantar. Mas também é ela que, em meio a um prato esquisitíssimo, salva a refeição de um pobre desavisado. Não tem certeza se o ensopadinho é de frango ou de rinoceronte?! Coma apenas a batata.

A batata é tão presente em nossas vidas que sou capaz de apostar que todos têm, tiveram ou um dia terão ao menos um amigo ou amiga com o apelido de Batata. Os (as) Batatas são pessoas bonachonas, de bem com a vida, o tipo gente finíssima - embora, quase sempre, tenham formas mais arredondadas!

Claro que se trata de uma generalização, mas acho difícil imaginar um bandido cuja alcunha seja Batata: "Preso, nessa madrugada, o temido serial killer Batata"; "O traficante Batata foi morto numa operação da polícia"; "Batata, após roubar os doces de uma criancinha, chutou a canela de uma velhinha e fugiu em desabalada carreira".

Sei lá, não combina! Deve ser porque a batata é um tuberculo bom por natureza e está fadada a ser sempre associada a comidas gostosas, pessoas bacanas e coisas legais. Não é à toa que quando se acerta alguma coisa na mosca se diz, o quê?! O quê?! O quê?! Batata!

- Que tal: "Batatinha quando nasce, espalha a rama se esparramando pelo chão..."
- Bacana, bem democrático!

Assim como a batata!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Perdendo as estribeiras


- Calma!

- Não me manda ficar calma, você sabe que isso me deixa mais furiosa!

- Então larga essa faca... vamos conversar...

- Olha pra mim - sacudindo histericamente a mão que empunhava a faca - tô com cara de quem quer conversar?

- Certo, então não vamos conversar... vamos ficar em silêncio, mas, por favor, me dá essa faca!

- Ah, você quer a faca?! Quer?! Vem aqui pegar se você tem coragem...

- Olha, na verdade eu sou bem covarde e por isso não vou até aí tirar a faca da sua mão... o que você acha de colocá-la no chão, bem lentamente, e chutá-la na minha direção?

- É pra rir?! Você tá contando uma piada?! É pra ter graça?! Eu tô rindo?! Tô?!

- Calma, pelamordeDeus!

- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaah, eu já mandei não me mandar ficar calma!

- Desculpa! Desculpa! Desculpa! Vamos negociar... o que você quer que eu faça?! Seja lá o que for, eu faço!

- Fecha a boca e me deixa fazer o que tenho de fazer...

- Não posso! Você sabe que eu não posso! - disse, enquanto as primeiras lágrimas começavam a rolar no canto dos olhos.

- Eu preciso...

- Não precisa... você é mais forte do que isso. Já passou por coisas piores... seja forte... por favor!

- Até quando vou ter que aguentar?! Até quando? Eu não suporto mais...

- Suporta sim! Você sabe que, assim como tudo na vida, essa fase vai passar!!!

- Vai passar?! Vai passar?! Como é que você tem coragem de me falar isso? Você nunca passou por isso...

- Meu amor... eu estou do seu lado... você sabe que pode contar comigo, sempre! Fazer isso só vai piorar as coisas...

- Não vai piorar, vai pôr fim a essa angústia...

- Mas você lutou tanto... vai deixar tudo terminar assim?

- Vou! Estou decidida...

- Você tem certeza?

- Nunca estive tão certa!

- Não há nada que eu possa fazer?

- Nada!

- Então eu vou junto! Corta uma fatia desse bolo de chocolate pra mim também... e das grandes!

- TPM na dieta? Quem aguenta isso?

- Não fale, amorzinho, apenas coma!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Top 5: declarações infelizes durante uma refeição


1° se encontrar, devolva! - o almoço acaba de ser servido. Parece sucolento. Parece que tem tudo o que você gosta. Você, de mãos dadas com a gula, coloca muito de tudo no prato. Coisa digna de pedreiro. Lá pela quinta ou sexta garfada, porém, a prendada anfitriã chama atenção de todos: 'Gente do céu, comam com cuidado. Perdi meu brinco, com tarraxa e tudo, na comida!' e não para por aí: 'Pior, não faço ideia de em qual prato perdi... então, muita atenção, quem achar, guarda, eu quero de volta! Trata-se de uma bijou caríssima!!'. O apetite foi embora?

2º só um pouquinho - domingão. Churrasco na casa de sei lá quem - na verdade não interessa porque você é um carnívoro assumido e topa qualquer convite pra um churras, certo?! Você chega na casa e percebe que asseio não é exatamente um hábito na família. No entanto, ignora, afinal, a carne fica assando na braaaaasa. Chegando à churrasqueira, porém, você nota que há apenas meia dúzia de magros espetinhos esturricando sobre a grelha. Entendendo que não é com carne que irá prencher seu estômago 'XL', faz um bom prato com a única outra coisa servida: salada de batatas com maionese. Quando já está quase no ponto de forrar o buraco do dente com a lasquinha de boi assado, uma voz alerta: 'Gentê, ó, não come muito dessa maionese que tá fora da geladeira desde ontem e não sei se está boa ainda... por via das dúvidas, comam só um pouqinho'. Está sentindo um helicóptero na barriga?

3º culpa do governo - almoço em família, com direito a noras, genros, cunhados, sobrinhos, cachorro, gato, galinha. Lá pelas tantas, já utilizadas todas as conversas para boi dormir - a saber, conversas sobre o tempo, a posse a Dilma, o cabelo da mulher do Michel Temer, o último capítulo da novela Ronaldinho Gaúcho - alguém tem a brilhante ideia de falar sobre coisas mais profundas. Eis que: 'E essa chuvarada, heim?! Viram as enchentes? O tanto de bueiro entupido? Esgoto a céu aberto correndo na porta das casas?! E os ratos? Cada um que parece mais uma capivara. E lama pra todo lado. Aquela água podre rolando por tudo... e tem gente que anda naquilo, viu?! Tanta sujeira... tudo culpa do governo'. A mousse de chocolate ficou indigesta?

4º engorda, viu? - depois de um inverno de dietas e academia, você está se sentindo um arraso depois de perder 2kg e 275g. Coloca aquele jeans que ainda fecha com dificuldade - mas porque encolheu, claro - e vai para o almoço na casa da sogritcha. A autoestima, acredita você, está inabalável. Você se sente linda e poderosa. Chegando lá, percebe que a única coisa verde no almoço é a toalha da mesa. Para não dizerem que você só emagreceu porque virou anorexa, faz um pratinho com um pouquinho de tudo, mesmo assim, a preciosa senhora não perdoa: 'Lindinha, vai comer tudo isso? Se continuar comendo assim, não vai emagrecer nunca. Aliás, você deu uma engordadinha desde a última vez, não?'. Ódio engorda?

5º gatinho traquina - sim, os gatos são as criaturas mais lindas, fofas e adoráveis da face da Terra. Todavia, gato e cozinha são mais opostos do que gato e cachorro. Ou pelo menos deveriam ser. Você adooooora gatos - tanto quanto eu - mas ao chegar para um almoço na casa da mãe da tia da vizinha do primo de um amigo, percebe que há mais gatos na casa do que estrelas no céu - no céu de uma cidade do interior. Brinca com um e com outro, mas fica torcendo para que a cozinha seja território proibido para tão peludas criaturinhas. Já à mesa, de prato feito diante do garfo, a gentil cuidadora dos bichanos solta: 'Ô, benzinho, dá aqui seu prato que o Félix dormiu a manhã toda nele. Vou passar sua comidinha pra outro pratinho, tá?'. Sentiu que vai passar dessa para melhor em breve?


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ano Novo!


- Credo! Que geladeira vazia! Vamos ao super?
- Ah, amorzinho... pode deixar que eu vou... fica aí assistindo a sua TV.
- Que novidade é essa?
- Resolução de ano novo.
- O quê?! Resolveu que vai me pregar uma peça nova todos os dias?
- Tá vendo como você é chato?! Vê má intenção em tudo...
- Aaaaah, não fica brava, é que você sempre diz que nosso casamento é na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na alegria e na chatice, até que a morte nos separe... Daí quando finalmente me ofereço para compartilhar a chatice você abre mão da minha preciosa companhia!
- Taí, me pegou de surpresa! É resolução de ano novo?
- Hummm... é... mais ou menos... pode se dizer que... OOOWWW... não muda de assunto! Eu que perguntei isso primeiro. Se a resolução não é me pregar uma peça por dia o que é essa novidade então?!
- Então... é que eu resolvi começar uma dieta saudável.
- E o que eu tenho a ver com isso?
- Tudo!
- Desenvolva...
- Veja bem...
- Xiiii... conversa que começa com 'veja bem' não termina bem...
- Nada disso! É que se você for ao super comigo não consigo fazer dieta.
- Oi?!
- Você se alimenta muito mal... come muita besteira... bebe muita cerveja...
- E o que isso tem a ver com a SUA dieta?
- Eu vejo você comendo e bebendo e fico com vontade.
- Amorzinho da minha vida... você acha mesmo que não me levando ao super hoje vai me impedir de comprar meus 'porcaritos'? Além disso.... nós dois sabemos que, diferentemente de mim, que leva tudo a sério, suas resoluções de ano novo não chegam a fevereiro, né?!
- Rá-rá! É por isso que eu incluí você na minha resolução...
- Hummm... que gracinha! Resolveu que eu vou me alimentar de forma saudável em 2011? Rá-rá-rá... mas se você não cumpre suas promessas e eu faço parte de uma delas... isso significa que eu também não irei cumpri-la... e por culpa sua!
- Aaaaaah... não tinha pensado nisso...
- Pois é, mas eu pensei... Vamos logo, vamos! Na volta podemos pedir uma pizza para acompanhar as cervejas...
- Ma-ma-mas... e se você resolver que em 2011 vai se alimentar de maneira mais saudável?
- Hummmm... não!
- Ah, vai... o que que custa?!
- Melhor: e se você resolver que em 2011 vai cumprir suas próprias promessas?
- E como eu vou fazer isso se eu não consigo cumprir nenhuma promessa?
- Então faz assim: vamos indo antes que o supermercado feche e na volta, comendo uma pizza, você faz uma nova lista de resoluções que não vai cumprir, o que acha?
- Sem graça! ...Hei... e qual é a sua resolução, heim?
- Não deixar faltar guloseimas e cerveja em casa...
*
Minha resolução para 2011: nada de resoluções!
Que 2011 flua como quiser - bem anarquista!
Feliz AnoNovo, que 2011 traga lindas supresas à vida de todos.


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Último de 2010


Um domingo seguidinho do Natal. Último domingo do ano. Problemas para o almoço?

- O que teremos para o almoço?

- Pensei em aproveitar o per...

- Epa, opa, epa, ê! Nem complete a palavra!

Todos fartos de peru, pois não?! Não só, mas também pernil, farofa, arroz com passas e tudo aquilo que ficou lotando as mesas durante a ceia e o almoço de Natal.

Isso sem contar que aqueles que prepararam todas aquelas delícias, não querem nem ouvir falar de cozinha.

O que fazer, então? Fácil: ir filar o almoço na casa de alguém.

- Já sei! Arrumem-se todos, vamos almoçar na casa da vó!

A vó, no entanto, vivida que só ela, não quis nem saber de cozinha e se pirulitou para casa do filho mais velho.

O filho mais velho, lembrando que tudo sempre sobra para ele, saiu de casa antes que alguém chegasse. Foram todos almoçar na casa da irmã mais nova.

A irmã mais nova, recém casadinha, tinha tanta habilidade na cozinha que ainda nem tirara o fogão da embalagem. Tomou café numa padaria e, junto com o maridinho, foram para a casa do irmão do meio.

Irmão do meio, sabem como é: aguenta tudo de um lado e de outro. Não dessa vez. Sabendo disso, mais do que depressa, enfiou a família no carro e correram todos para a casa da mãe dela.

A mãe até ensaiou preparar um macarronada, mas o dia não estava com cara de domingo. Então decidiu que nem entraria na cozinha. Saiu, junto com o marido, para almoçar na casa da irmã.

A irmã, que era solteira, não tinha filhos nem gatos, sentindo-se deprimida, optou por passar as festas num retiro espiritual.

Resultado? Bateram todos com seus narizes nas portas. Acabaram, coincidentemente, encontrando-se no Mc Donalds. No mesmo Mc Donalds! E pronto... família reunida de novo, um domingo com cara de domingo... ou quase isso!

*

Espero que o Natal de todos tenha sido fantástico!

*

Esse é o último post de 2010. Não sei quanto a vocês, mas para mim foi um ano incrível, de grandes emoções (no melhor estilo montanha russa sem cinto de segurança!!!). Muito obrigada a todos que passaram, ainda que silenciosamente, por aqui ao longo desse ano. Um agradecimento especial àqueles que deixaram seus comentários aqui ou mandaram e-mails super carinhosos: vocês são demais!

Sei que aquilo que escrevo aqui não irá mudar o mundo. São apenas pequenas bobagens, mas o que seria da vida não fossem os momentos que paramos para reparar nessas bobagenzinhas que deixam a vida mais leve, mais simples, mais colorida?

Taí, esses são meus votos: que a vida de todos, não apenas em 2011, seja leve, simples e colorida!

Nos vemos em 2011!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Ideias de verão


- Buff...

- Que foi?

- Esse calor!

- Que que tem?!

- Tá quente demais!

- Fazer o quê?!

- Sei lá, só sei que eu tô derrentendo...

- Sorvetinho agora, heim?!

- Pensei numa cervejinha trincando...

- Humm... boa! Um sorvete de cerveja!

- E existe?

- Não, mas deveria!

- Por que ninguém pensou nisso?

- Como assim ninguém?! Eu acabei de pensar!

- Eeeeeeeeeeeee...

- E que eu não tenho fábrica de sorvete, nem de cerveja!

- Ow... então liga pra uma das duas e dá essa ideia!

- Boa!

(algum tempo e ligações depois)

- E aí?!

- Ah, anotaram minha sugestão...

- Eeeeeeeeeeeee...

- E agora é só esperar!

- Quanto tempo?!

- Sei lá, cara!

- Aaaaah... tô precisando pra agora!

- Pra agora, agora, agora... a gente pode descer lá na padoca e misturar uma cerveja no sorvete...

- Afff... qualquer coisa que faça esse calor passar!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Por uma vida de migalhas

- As coisas estão muito mudadas! – disse balançando a pequena cabeça inconformadamente.

- Sim! Sim! Dá só uma olhada nisso – fazendo um gesto amplo, tentando mostrar quão diversa era a paisagem atual.

- Não é querendo ser saudosista, mas a vida antigamente não era assim, não.

- Meu pai conta que na época dele de jovenzinho, ele vivia de barriguinha cheia... e com comida de primeira, viu?! Migalhas de boa origem!

- Então, rapaz, é disso que eu estou falando! Antigamente, o pessoal trazia migalhas especialmente para nos oferecer. Havia fartura! Hoje em dia é só o que cai da mão de alguém eolha lá!

- Pois é! O que aconteceu com os aposentados generosos?! Aliás, eles mal aparecem nas praças!

- É a violência! Sentar em banco de praça se tornou atividade de risco.

- Sim, sim! E os poucos que aparecem oferecem cada coisa. Quem foi que disse que a gente gosta de salgadinho moído?! Aquilo é pura gordura trans, amigo. Sinto minhas artérias entupirem na hora.

- Não se oferta mais migalhas de pão?

- E pior, quando uma mão generosa resolve lançar as migalhas ao chão, temos que sair na asa com os outros pra conseguir dar umas bicadinhas.

- É muito bico pra pouca migalha, meu velho!

- Pior, quando cai todo mundo em cima das migalhas, ainda vem um doido espantando a rapaziada dizendo que a gente é tudo sujo que transmite doenças. E eles são muito limpos, por acaso?! A gente é que deveria ter nojo de comer as migalhas do chão por onde passam tantos sapatos sujos!

- É verdade. Mas você está pensando em fazer o quê?!

- Olha, estou querendo largar isso, rapaz! Estou querendo me mudar para o interior. Essa vida de pombo urbano já me cansou.

- Ah, sei lá, viu?! Cidade do interior tem pouco pombo, mas tem muito pardal, sabiá, tico-tico, não sei se tenho paciência para todos esses sotaques esquisitos.

- Que nada! Você se acostuma, sem contar que lá, além de ainda haver praças com fartura de aposentados com o velho hábito de levar sacos de migalhas pra distribuir, ainda tem as frutas nas árvores para sobremesa! Lá ainda se leva vida de rei!

- Ainda assim...

- Que que é isso, cara?! Pensa no saborzinho das migalhas de pão caseiro, nas de biscoito de polvilho e nas frutinhas... pensa nas frutinhas frescas!

- Tem jabuticaba?

- Opa! Tem um primo meu morando num pé de jabuticaba.

- Cara, adoro jabuticaba! Estou convencido, vou com você.

- Maravilha! Tem um ônibus saindo daqui 20 minutos da Rodoviária do Tietê.

- Pensei que a gente ia voando...

- E desde quando pombo urbano voa para longe?!

- Ah, é! Isso é coisa do tempo do meu avô.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Top 5 - Eê... mandingas na cozinha

1ª ovo – desde criancinha ouço dizer que para que não chova é preciso jogar claras de ovo em cima do telhado. Confesso que nunca tentei, mas muitas noivas por aí devem ter feito essa mandinguinha simples que não requer prática, tampouco habilidade. Dia desses aprendi uma ‘simpatia’ nova, que utiliza o mesmo princípio ativo e visa o mesmo resultado: para que não chova, basta colocar um ovo em cima do muro. Acho que São Pedro fica tão maravilhado com um ovo equilibrando-se sobre um muro que se esquece de mandar água de lá de cima. Só pode!

2ª sal – Caso esteja muito complicado equilibrar um ovo ou não se queira fazer uma meleca no telhado, mas, ainda assim, você queira que não chova, recentemente aprendi uma nova mandinga em prol da estiagem: basta fazer um círculo no quintal utilizando sal! Além desse fim, não é de hoje que reparo que muita gente tem o hábito de, ao sentar-se à mesa, salpicar um punhadinho de sal na mão direita e, sobre o ombro esquerdo, lançar o tal punhadinho para trás. Pra quê? Dizem que é para afastar a inveja. Se afasta não sei, mas, no mínimo, ela fica mais temperadinha!

3ª pimenta – e por falar em inveja, caso o sal não tenha resolvido, o jeito é apelar para algo, literalmente, mais forte. Tenho pra mim que a pimenta nasceu para mandinga e acabou sendo desviada para tempero! Inclusive tem gente que leva isso muita sério: uma amiga contou que, certa vez, usando o molho de pimenta que tinha na geladeira, ela reparou num elemento estranho dentro do frasco. Quando abriu, puxou de lá de dentro um pequeno pedaço de papel com um nome escrito nele. Eê! Espantada, chamou a empregada que, na maior naturalidade disse que era o nome de uma vizinha que andava botando olho grande na vida dela. Na falta de um frasco de pimenta na própria casa, achou que não haveria mal algum em usar a pimenta da patroa!


4ª pipoca – falando em reaproveitamento... uma outra amiga contou que numa ida ao cinema viveu uma experiência interessante. Lá pelo meio do filme, que era muito ruim, a plateia, numa manifestação coletiva, rebelou-se e começou uma guerra de pipoca. Foi chuva de pipoca pra todo lado. Ao invés de se revoltar, essa amiga encarou o lado positivo do fato: assistiu a meio filme e ainda tomou um passe! Gente otimista é outra coisa. Dizem que o efeito da pipoca é fartura, só não sei se, ao invés de jogar pelo corpo em forma de banho, a pessoa que as come obtém o mesmo resultado. Será?

5ª galinha – ao contrário das anteriores que são todas mandinguinhas leves, as que levam galinha em sua lista de ingredientes são barra pesada. Geralmente, mandinga com galinha (galinha preta!) envolve despacho e encruzilhada. Afff, coisa braba. Fico com dó das pobres galinhazinhas que, sabendo de seu invariável trágico fim, torcem pelo menos pior: ‘Tomara que eu vire ensopado e não despacho!’. Nesse caso, a panela é melhor destino do que a cumbuca de barro, né não?!