domingo, 1 de junho de 2008

Édipo na cozinha



Fizeram tudo de maneira bem típica: conheceram-se, namoraram, engravidaram, noivaram e casaram-se. Tanto ela quanto ele saíram da casa dos pais para começar uma nova família.

Ela, moça inteligente, dedicada e prendada como não se vê mais hoje em dia. Estava no último semestre de engenharia de alimentos quando engravidou. Foi à formatura de barrigão.

Ele, rapaz bem educado, paparicado e criado sobre os mimos e cuidados da mãe. Estava no último semestre de engenharia civil quando descobriu que não seria mais o neném da mamãe e passaria a ser o papai do neném da vovó. Foi à formatura com enxaqueca.

Caídas todas as fichas, hora de encarar a nova vida. Ele, sortudamente, conseguiu vaga numa grande construtora. Ela, gravidíssima, teria de adiar um pouquinho o início da vida profissional. Aos poucos, as coisas iam se ajeitando: ele estava adorando o emprego, a vida de casado e a idéia de ser pai; ela até que via certo charme em poder desfrutar traqüilamente da gravidez e ter tempo para se dedicar aos cuidados da casa.

Ele, como bom filhinho da mamãe, não sabia ferver a água para um chá. Ela, como boa moça prendada, esmerava-se nos cuidados com o desajeitado marido. Aos domingos, rigorosamente, convidavam os pais de ambos para a macarronada que ela fazia questão de preparar. Ela adorava cozinhar e fazia isso de maneira primorosa, aliando tudo o que aprendeu com a mãe aos conhecimentos técnicos da faculdade. As famílias se davam bem, o que tornava as reuniões sempre muito agradáveis... não fossem os insistentes comentários dele depois que todos iam embora:

- Amorzinho, o almoço estava delicioso, mas a macarronada da mamãe é insuperável.

ou:

- Querida, sua comida é uma delícia, mas ninguém faz macarronada como a minha mãe.

ou ainda:

- Meu chuchuzinho, bem que você poderia aprender como minha mãe faz macarronada, né?

Aquilo, para ela, era uma afronta. Como assim aprender a fazer macarronada com a mãe dele?! Ela aprendeu a fazer macarronada com sua mãe, que, por sua vez, aprendeu com sua avó, que era italiana legítima! Sabia fazer macarrão de modo caseiro, preparava o molho com horas de cozimento, temperos colhidos em sua mini horta. Tudo com amor, técnica, história e preciosismo. E era a mãe dele quem fazia a melhor macarronada???? Tomou aquilo como desafio. Superaria a macarronada da sogra custasse o que custasse e sem pedir a receita.

Começou a pesquisar. Leu livros e mais livros de receitas. Freqüentou cursos, workshops, conferências. Fez aulas com um tri-estrelado chef italiano que visitava o Brasil. Passou a fazer macarronada todos os dias. Já estavam oito quilos mais gordos e nada. Ele continuava dizendo que a macarronada da mãe era melhor.

Um dia, um daqueles dias que tudo resolve dar errado, ela, quase doida, preparava o jantar: macarronada. Entrega das compras do supermercado chegando, cozinha tomada por sacolinhas, a vizinha pedindo uma xícara de açúcar emprestada, os gatos brincando alucinadamente com as sacolinhas do supermercado e o bebê chorando freneticamente, clamando por atenção. Com o molho já quase pronto, colocou a massa para cozinhar e resolveu colocar ordem no caos. Despachou a vizinha dizendo que só tinha adoçante, deu dezessete sacolinhas vazias para os gatos brincarem na varanda, escondeu as comprar no armário e foi acudir o filho que berrava como uma sirene. Como o caso era de fralda vencida, quando terminou de higienizar o herdeiro, o molho já estava num princípio de incêndio e o espaguete já estava da espessura de um braço. Exausta, irritada e furiosa, resolveu servir aquela massaroca no jantar.

Ao engolir a primeira garfada, ele fechou os olhos, suspirou e de joelhos disse à ela:

- Minha vida, finalmente sua macarronada ficou como a da mamãe!!

Ela pediu o divórcio na mesma noite.

Ele voltou para a casa da mãe e ela casou-se com o tal chef italiano.

4 comentários:

Marcia disse...

FAbi, cheguei bem por acaso, mas adorei a estória...estou rindo até agora.

H. disse...

Sem sintonia gastronômica, não há amor que agüente.

Só pude sentir inveja do tal chef italiano ao final!

FabiCatarse!! disse...

Concoooooooordo!! Sintonia gastronômica vale muitos pontos num relacionamento.

Culinária com gosto disse...

amei o texto, eu bem que gostaria de casar com o meu professor. Um Chef italiano liiiiiiiiiiindo!!! rsrsrs