domingo, 11 de julho de 2010

Um dia de cada vez


Para ele, essa final de Copa do Mundo teve um sabor diferente: o sabor amargo do medo.

Ele era um esperto e habilidoso croupier num grande cassino nas profundezas de um badalado oceano. Embora tivesse certos talentos, era só mais um dentre tantos funcionários. Há cerca de 2 meses sua vida mudou completamente. Um certo dia, um mergulhador chegou àquela profundidade e, sem mais nem menos, capturou o pobre funcionário que, sem chances de defesa, nem teve tempo de se despedir da turma.

Aquele não era seu fim. Depois de tanto tempo trabalhando num cassino ele viu e aprendeu muitas coisas, sabia que tinha uma habilidade especial, tinha intuição aguçada, percebia de longe um espertalhão que tentava levar vantagem na sua roleta. Ele era esperto e usaria isso a seu favor.

O sequestrador era um homem recém-falido que realizava seu último mergulho antes de vender todo seu equipamento para saldar uma ridícula parte de sua imensa dívida junto a to-dos os bancos da Inglaterra.

Em terra firme, o resultado da pescaria seria a panela, mas, enquanto amolava a faca, aquele homem, sem explicação, apiedou-se da pobre criatura e decidiu não jantá-la.

A quase-janta não ignorava uma oportunidade! Decidiu cativar o mergulhador. Olhando ao redor do minúsculo aquário, percebeu que seu sequestrador estava em apuros financeiros então, percebeu que poderia comprar sua permanência no mundo dos vivos. Fez de tudo para chamar a atenção do homem: saltos, piruetas, acrobacias. Finalmente o homem notou algo diferente acontecendo no aquário e passou a observar atentamente o que seu novo amigo fazia. O que era aquilo? Parece que são... sim, são números! 78, 25, 36, 12, 48. Correu, pegou papel e caneta. Entendeu na hora o que estava acontecendo e correu para a casa de apostas mais próxima. No dia seguinte o falido mergulhador era dono de uma das maiores fortunas da Inglaterra.

Mas, quando a pessoa tem talento para o fracasso, ninguém a segura, pois não?! Pois é! Deslumbrado e abestalhado, o homem não se deu conta de que sortudo era seu amiguinho, não ele! Achou que estava numa maré de sorte e resolveu apostar tuuuuuudo que tinha (tudo, tudo mesmo, incluindo a nova casa com tudo dentro, incluindo o aquário e seu conteúdo!) numa daquelas apostas de ‘o dobro ou nada’. Resultado?! Ele ficou com o ‘ou nada’ enquanto o outro apostador ficou com ‘tudo’!

O outro apostador, um velho dono de restaurante de frutos do mar na Alemanha, tomou posse dos novos bens, vendeu tudo, pegou o dinheiro e voltou para casa. Na bagagem, além de muito dinheirinho inglês, levou o aquário e seu morador... achou que daria um bom prato! Mais uma vez o coitado do sequestrado temeu pela sua vida, mas, mais uma vez decidiu que daria seu jeito.

Já na Alemanha, no (macabro) restaurante, num aquário maior, pôs-se a pensar o que faria para preservar sua vida.

Era quase meados de junho e o tal alemão preparava seu restaurante para receber os torcedores da seleção alemã de futebol durante as partidas na Copa do Mundo da África. Sim! Ele percebeu que seu novo dono era fanático por futebol! O futebol salvaria sua vida!

O aquário estava todo enfeitado com bandeiras de todos os países participantes do mundial. Pouco antes do primeiro jogo, usando sua espantosa intuição, começou a apontar a bandeira do país que venceria aquela partida. Demorou um pouco, mas a certa altura, um dos torcedores que assistiam a partida percebeu uma certa histeria no aquário e entendeu o recado! Achou engraçado e chamou os amigos para observar o morador do aquário.

E assim foi, jogo a jogo, placar a placar, acerto a acerto que Paul, o polvo, tornou-se um fenômeno mundial! O grande oráculo da Copa do Mundo. Contrariando especialistas, jornalistas,videntes, gurus e pais de santo, Paul passou a ser 'o' anunciador de resultados. Sim, sim, o medo da morte aguçou sua intuição!

Antes de todos os jogos o alemão, demovido da ideia de papar Paul, colocava o par de bandeiras de cada partida e o polvo dava seu veredicto.

Alguns resultados causaram polêmica e alguns apostavam no fim de Paul – principalmente quando ele anunciou que a Alemanha perderia para a Espanha! Mas após os 90 minutos, bingo! Ele estava certo, mais uma vez.

Hoje, porém, passaram-se os 90 minutos, Paul já sentia o cheirinho da manteiga fritando na panela que receberia as rodelinhas de seus tentáculos. Era seu fim?! Será que o polvo iria errar justamente o último e mais importante jogo do mundial?! Nos 15 minutos do primeiro tempo da prorrogação, Paul já planejava uma fuga espetacular. Quanto tempo sobreviveria fora da água?! Mais 15 minutos, o pobre polvinho já não sentia metade de seus tentáculos, estava tendo um AVC de tanto medo! Já via a luz quando, de repente, um grito de gol. Abriu um de seus olhinhos e mirou a TV: gol da Espanha!! Ainda faltavam 3 minutos para o fim, o alemão ainda mantinha a frigideira no fogo, Paul uniu os 8 tentáculos e rezou fervorosamente pelo fim daquela torturante partida. Fim! Acabou! Espanha campeã.

Mas, mais uma vez, Paul escapou da morte, da panela e da paella. O que será do polvo a partir de amanhã?! O que será de sua história?! Por via das dúvidas, todos os pratos à base de polvo saíram do cardápio do restaurante do alemão.

E assim, Paul, o polvo, vai vivendo... um dia de cada vez. Só não está mais feliz porque sabe que muitos de seus parentes virarão paella. Um minuto de silêncio, por favor...

.....................

Aaaaaah, fiquei feliz pela Espanha! Sempre bom ver a Fúria jogar... melhor ainda vê-la ganhar, né não?!

domingo, 4 de julho de 2010

E a culpa é de quem?!



Sexta-feira, 02 de julho de 2010, 6h30.


Blim-blom, blim-blom, blim-blom-blim-blom,blim-blom!



-Heim? Onde? O que? Por quê? Juro que não fui eu! Oi?! Já tô indo! – saltando da cama, tropeçando no lençol, calçando os pés trocados dos chinelos, vestindo a blusa do pijama.


(na porta)


- Booooooooooooooom dia, vizinho!


- Quem é você?! - esfregando os olhos, achando que aquilo diante dele era uma ramela gigante.


- Ah, brincalhão logo cedo! Maravilha! Posso entrar?! – entrando.


- (...)


- Você deve estar se perguntando o que seu vizinho está fazendo logo cedo na sua casa, não é?! Eu respondo: sorte! Não, não, não precisa pensar... eu explico: hoje tem jogo do Brasil, certo?! Certo. Tá lembrado que assistimos juntos ao último jogo?! Eu, você e mais umas 30 pessoas?


- Lembro, lembro sim, inclusive lembro que convidei as 30 pessoas, também lembro que não convidei você, mas você apareceu mesmo assim!


- Ah, adoooro esse seu senso de humor! Mas, então, como eu ia dizendo, assistimos àquele show de bola da nossa seleção contra o Chile juntos, aqui no seu apartamento. Churrasquinho rolando na varanda, cervejinha gelada, aquela maionese deliciosa que sua namorada fez, depois aquele sorvetinho italiano de sobremesa. Tudo uma delícia!


- Ah, que bom que você gostou! – irônico, claro! – Mas será que você pode encurtar a conversa, ainda gostaria de completar meu ciclo de sono que foi brutalmente interrompido por seu ataque histérico na campainha.


- Ok, serei breve, afinal, temos pouco tempo!


- Temos?!


- Sim! E se você não me interromper mais poderemos terminar logo com isso...


- Bufff...


- É o seguinte, estou aqui pra avisar que você deu sorte à seleção brasileira!! Ganhamos o jogo anterior e temos que repetir a dose pra manter a boa fase até dia 11! Passei aqui logo cedo pra você ter tempo para preparar tudo. Mas, veja bem, tem que ser tudo igualzinho, não pode faltar nada: galera, churrasquinho, cerveja, maionese, sorvetinho italiano... tudo!


- Você só pode estar brincando!


- Não, não estou! Pensa que aqueles caras que estão lá na África, vestindo aquela camisa, defendendo a nossa bandeira, estão dependendo de você, da boa sorte que você proporcionou a eles! Pense nos milhões de brasileiros que você fará feliz permitindo que a seleção canarinho ganhe a Copa do Mundo! O hexa depende de você... - bradando a plenos pulmões, com a mão direita sobre o coração, fazeno do sofá o seu palanque.


- Ma...ma...mas... são tantas coisas, não estava preparado pra isso, não tem nada em casa... eu ia assistir num restaurante! – note-se que o tal vizinho tocou o coração desse pobre inocente que já está zonzo pensando nos preparativos do dia da marmota!


- Por isso que eu vim tão cedo!! Meu querido, eu teria o maior prazer do mundo em ajudá-lo, afinal, também sou brasileiro, honro a minha pátria e daria minha vida por ela, maaaaaaaaaaaas, infelizmente, no último jogo, não toquei em nada, não movi uma palha, nem sequer abanei a brasa da churrasqueira, portanto, não posso alterar a energia daquele dia! Mas, estarei em casa, torcendo pra que você consiga preparar tudo a tempo – saindo - Volto aqui às 11h em ponto, como da última vez. Não decepcione todos aqueles que creem na seleção...



As horas seguintes foram de pânico total. Nunca se organizou uma reunião de amigos tão rápido! E não era qualquer reunião, era, praticamente, uma fiel reprodução do que acontecera na sexta-feira anterior. Exceto...



- Gol da Holanda?! Outro?! Puuuuuuuuuuutz... já era!


- Não, não, não pode ser! Eu fiz tudo igualzinho! Olha, gente, tá tudo aqui: churrasco, cerveja, sorvete italiano... Tudo igual, perfeito!


- Nem tudo – disse o vizinho, fria e condenadoramente - Cadê a maionese da sua namorada?!


- A maionese?! É que... que...


- Que, que, o quê?! Anda, fala, responde!


- É que a gente terminou no fim de semana e por isso ela não veio e não trouxe a maionese... – em prantos, não se sabe se pelo fim do namoro, pela ausência da maionese ou pela eliminação da seleção brasileira.


- EGOÍSTA! Você colocou sua vida pessoal na frente de milhões de brasileiros?! Vamos embora, pessoal, vamos pra algum bar, beber pra esquecer que existe gente tão mesquinha no mundo... alguém paga pra mim? Tô durão.



E até agora estamos sem saber se aquele gol contra do Felipe Melo, aquele que causou o apagão na seleção canarinho, foi mesmo culpa da ausência da maionese ou se foi juquice mesmo. O fato é que a Copa da África, pro Brasil, acabou. O lado bom (e hilário!) é que pra Argentina também kkkkkkk! E agora: Espanha ou Alemanha?!





domingo, 27 de junho de 2010

Cada um tem seus motivos para torcer pela seleção brasileira


- Animado pro jogo de segunda?

- O quê? Eu tô é em pânico!

- Sério?! Você realmente acha que a seleção do Chile apresenta perigo real?! Ou você acha que a seleção brasileira tá tão fraquinha que tem ter medo de qualquer um?

- ...bom, já que você tocou no assunto, se a seleção continuar jogando essa bolinha, vai ficar difícil avançar... esse é meu pânico.

- Não chegar à final?! Acontece, né?! Aliás, com o Brasil, com certa frequência.

- (toc-toc-toc) Vira essa boca pra lá, rapaz! A seleção não pode fazer isso comigo!

- Ora, ora... Nunca soube que você era tão fanático por futebol!

- Fanático? Eu? Por futebol? Mas não gosto mesmo... na verdade nem ligo! Mas é que essa Copa...

- Vejam só o que uma Copa do mundo faz com uma pessoa! Acho bacana ver o patriotismo brotar num brasileiro... ainda que seja de 4 em 4 anos!

- Que patriotismo o quê!

- Ué, então você tá torcendo pro Brasil ganhar nas oitavas pra perder nas quartas?!

- Jamais! Quero ver o Brasil na final! Já acionei todas minhas tias pra começarem uma novena daquelas! Em pagamento, já garanti a viagem delas pra Aparecida esse ano!!

- Ah, mas agora que eu tô entendendo! Você quer que o Brasil chegue à final e perca?! Você é argentino, cara?

- Brasileiro de pai, mãe e avós, graças a Deus!!

- Ah, bom, então você quer ver o Brasil campeão?!

- Na verdade tanto faz...

- Isso tá parecendo papo de maluco! Por que diabos você organizou a novena?!

- Pro Brasil chegar à final!

- Pra que se pra você tanto faz se a canarinho ganhar ou perder?!

- Cara, eu comprei uns 3 bois, 6 porcos em forma de linguiça, 1/2 cervejaria e 2 TVs de plasma. Se o Brasil não avançar, meu boteco vai à falência!! Ninguém vai aparecer aqui às 3 da tarde pra comer churrasco, beber cerveja e assistir Vale a Pena Ver de Novo!! Como é que eu vou pagar minhas dívidas?! Eu investi alto nessa Copa! Só de palito de dente pra cutucar o churrasquinho, foi 1/2 Amazônia, dá pra construir uma casa!

- Aaaaaaaaaaaah, tá certo! Agora eu entendi! Mas não esquenta, meu amigo, se o Brasil voltar mais cedo pra casa, manda os bois restantes pra Argentina... do jeito que as coisas vão, acho que eles vão precisar... mais do que você!


Toc-toc-toc! Argentina, não!! Tô apostando na eficiência da novena das tias!


quarta-feira, 23 de junho de 2010

3º Aniversário!!

Hoje tem bolo aqui no .::Clara.em.Neve::.
Pelo menos aí na foto.
Sim!
Hoje é o 3º aniversário desse humilde bloguinho.
Trêêêêêêês anos. Bastante, né?! E sabe por que tem durado tanto?!
Porque pessoas como você (é, você mesmo!) leem as pequenas bobagens que escrevo!
Muuuuuuuuuuuuuuito obrigada a todos:
os fiéis leitores, que não perdem um post;
aos que entram aqui sóóóóóó de vez em quando, pra ver o que anda rolando;
aos que estão passando aqui pela primeira vez (e que vão voltar sempre!);
aos que estão passando pela primeira vez (e não voltarão nunca mais... desculpaê!)
aos que um dia passaram por aqui.
Vamos lá, pessoal, peguem uma fatia de bolo, puxem uma cadeira, vamos nos sentar e bater um papo sobre comidinhas!!
Esse é só o 3º dos próximos 300 aniversários!



PS: juro que vou mudar a foto e texto do layout, assim que tiver um tempiiiinho!


domingo, 20 de junho de 2010

Papo de alto nível

Dia desses, parada, esperando o bonde passar, fui praticamente obrigada a escutar o seguinte papo:


- Foram aonde no fim de semana?


- A gente foi naquela lanchonete pra lá do fim do mundo – infelizmente não pude memorizar o endereço da biboca pra poder indicar pra vocês... poxa vida!


- Legal lá? – Adivinhemos!!!


- Nooooooooooooooooooossa, muito legal!!!! - com muita ênfase no 'nooooossa' - Meu, tem música (?) ao vivo até de madrugada... os caras tocam muito (mal?!)... só música legal... Vitor e Leo, Luan Santana, Bruno e Marrone, Calypso, Calcinha Preta... a noite inteira – a tortura não tinha sido abolida no Brasil?!


- É caro lá?! – Só de couver artístico deve ter sido uma nota preta!


- Homem 3 real (!) e mulher de graça – Ó que oportunidade, gentê!


- E bebida?! - Medo!


- Como estava frio ninguém quis beber cerveja, daí a gente pediu vinho – vai vendo...


- Ã...


- Meu, um delícia! Vinho gostoso, beeem docinho, sabe? - ênfase no 'beeeem' – 6 (!) real (!) a garrafa – Maravilha! Me veja 2 garrafas, s’il vous paît! É hoje que eu começo minha adega - A gente estava em 4, cada um bebeu uma garrafa - Ã... - Daí, ontem eu quase morri de tanta dor de cabeça – Aaaah, por que será?! – Mas o vinho era bom, sabe?! Não era desses vinhos porcaria – Ah, mas eu aposto que o vinho era realmente de primeira, afinal, quase ter um AVC no dia seguinte à bebedeira é um forte indicativo da alta qualidade do vinho, né não?! Claro! – Muito chique lá, alto nível! – Alguém duvida?! – E os petiscos?! Mortandela (!) e queijo cortadinhos, sabe?! Tudo temperadinho... nossa a gente comeu demais! – Um banquete dos deu-ses!


Se pudesse não teria escutado, mas é como dizem: melhor escutar isso do que ser surda!!!



domingo, 13 de junho de 2010

Arquibancada


- Vai almoçar onde?

- No de LED, claro!

- No de 32 ou de 42 ?

- Ah, no de 32 porque tem mais, embora sejam menores.

- Vou com você!

- Saímos que horas?!

- Já!

- Mas são 10h30!

- Ah, meu amigo, se não formos agora perderemos o melhor lugar, bem na frente da TV!

Além de garantir o melhor lugar na arquibancada, digo, no restaurante, claro que também será preciso contar com a compreensão dos chefes, afinal, os almoços ficarão um pouquiiiiiiinho mais longos, basicamente, dois tempos de 45 minutos, mais intervalo! Sim, começou a Copa do Mundo dos restaurantes! A qualidade da comida, ao longo dos 30 dias do torneio, ficará em segundo plano, será eleito O preferido, aquele restaurante que investiu em mais aparelhos de TV, mais modernos, maiores, mais bem localizados. No meio daquele contra-ataque aos 45 do segundo tempo, nas oitavas de final, tanto fez como tanto faz se carne está bem passada, está esguichando sangue, se está macia ou uma borracha... importante é não perder o lance.


E os jogos que acontecerão às 8h30?! Isso é horário de jogo de futebol?! Que desculpa dar para uma ‘fugidinha’ do trabalho passados apenas 30 minutos do início do expediente, minha gente?! Sugestão? Culpe o café da manhã:


- Hummmm, o café da manhã não caiu bem... vou dar uma passadinha no médico, ok?! Volto daqui dois tempos de 45 minutos mais intervalo.


(Escolha o hospital ou consultório que tenha uma sala de espera digna de sua empenhada torcida!)

Os jogos de 15h30 ficam um pouquinho mais complicados: nem café da manhã, nem almoço, 15h30 é horário de quê?! Horário de ser sincero e abrir o coração para o(a) chefe:


- Podemos conversar?

- Claro, entra! – chefe receptivo (a)

- (trêmulo) Eu... bom... estou aqui há quantos anos? Três? Quase quatro. O senhor sabe que sou pontual, não falto, faço meu trabalho da melhor maneira possível, tenho responsabilidades que vão além das minhas obrigações... não, não, não estou reclamando! E o senhor bem sabe que não tenho o hábito de pedir nada, mas acho que estamos num momento que eu posso, ou melhor, eu preciso tomar a liberdade de fazer um pedido...

- Calma rapaz, não precisa ficar tão nervoso. Já tenho reparado no seu bom trabalho há algum tempo e acho que é mesmo hora de conversarmos sobre um aumento. Pensei em 20%.

- Nãããããão, não...

- Opa! Quer ganhar mais do que eu rapazinho?

- Não, não é isso! Eu queria pedir para assistir ao jogo de hoje! Fomos dispensando apenas para assistir aos jogos do Brasil, mas sou louco por futebol, chefe! E Copa do Mundo pra mim é tudo... é um espetáculo! São os melhores jogadores do mundo defendendo a camisa da sua pátria... são nações inteiras que se unem em torno de um objetivo... os jogadores sabem disso e fazem de cada jogo uma verdadeira batalha, mas uma batalha totalmente pacífica (menos os argentinos, porque eles entram solando mesmo... uma baixaria!!). É esporte, é superação, é técnica, é sorte! Num jogo, um país pobre, subdesenvolvido, subjugado pode mostrar supremacia, não pela força ou violência, mas pela garra de 11 homens que representam ali cada uma das pessoas de seu país...

- (com olhos marejados) Rapaz, pode parar... já me convenceu! Isso que você disse é lindo demais (deixando rolar uma lágrima discreta no canto do olho). Vai, vai, pode ir, pode ir! Volta só no dia 12 de julho...

- Poxa, chefe! Obrigado, obrigado mesmo! O senhor não vai se arrepender. Daqui 4 anos, prometo que programo minhas férias para o mês da Copa! ... mas... a propósito, o senhor pensou em 20%????????

- Vai, vai, rapaz... agora estou emocionalmente abalado... conversamos sobre isso depois da Copa...

Bom, caso seu chefe não seja tão compreensivo ou você não seja tão convincente, o jeito é apelar pro cafezinho... de quando em quando você dá uma escapadinha falando que vai tomar um golinho de café e espia os últimos lances na TV do celular ou naquela de 8 polegadas da recepção... E dá-lhe jeitinho brasileiro!

Aaaaah, não sei vocês, mas adooooro Copa do Mundo, os jogos, a maioria deles, são ótimos, dão gosto de ver! Claro que os problemas do Brasil e do mundo continuam, sabemos e somos conscientes disso, npois não?! Mas desfrutemos esse alento futebolístico.

Escolham suas arquibancadas... apenas tomem cuidado com os petiscos e bebidas, principalmente nos jogos das 8h30! Afinal, vai ser difícil explicar o bafão de cerveja voltando do hospital!

Apostam em quem? Não sei quem vai ganhar, mas Brasil e Espanha na final seria genial, heim?!

domingo, 6 de junho de 2010

Cooooooooooof-cof-cof

Tosse: ô coisinha chata! Depois da gripe, lá vem ela, a tosse, esta manifestação pulmonar involuntária e irritante. Simplesmente não há como evitá-la. Você respira fundo, se concentra, finge que aquela coceirinha na garganta não é com você, mas não tem jeito. Antes mesmo que se tente outra estratégia a vontade de colocar os pulmões pra fora já tomou conta do corpo, da mente e, claro, do ambiente!

Ao contrário da dor de garganta, da dor de barriga, da dor de cabeça, da câimbra, da unha encravada e tantos outros desconfortos solitários, a tosse é um mal-estar coletivo. A tosse não irrita apenas a garganta do pobre coitado que a possui, irrita os ouvidos e os nervos daqueles que são condenados a conviver com o ser tossinte.

A princípio, todos tentam ser compreensivos, afinal, quem está livre de passar por isso? Aos poucos, à proporção que crescem os cof-cofs, é possível perceber que as pessoas ao redor vão se incomodando mais e mais, ao ponto de não aguentarem mais ouvir o coitado tossir. Como perceber a sutil transição entre a piedade e a perda da paciência?! Quando começa o festival de receitinhas:

- Tenho uma receitinha ótima pra acabar com essa tosse: mel com limão! Coloca o mel numa colher quente, espreme meio limão e joga direto na garganta. É ótimo!

- Abacaxi! Coma umas três ou quatro fatias durante o dia. É ótimo!

- Já tentou chá de gengibre? É ótimo!

- Melado de açúcar mascavo com gengibre. Corta a tosse na hora! É ótimo!

Se nenhuma dessas (ótimas) receitas acabarem com sua tosse, nada, nada você ganha um belo nó no estômago de tanto ingerir coisas tão absurdamente doces.

Ah, mas não para por aí. Para quem prefere, há também o cardápio salgado:

- Vinagre de arroz e sal! Faz um gargarejo antes de dormir. No dia seguinte, nada de tosse. - E nada de esmalte nos seus dentes!

- Chá de alho: corta gripe e tosse. Infalível! - Corta vampiros também, né não?!

E as receitinhas que você juuuuura que estão fazendo super bem, até que...

- Tá tomando alguma coisa pra essa tosse?!

- Leitinho quente com canela, antes de dormir...

- PeeeeeeeeeeeeeeeelamordeDeus! Para com isso já! Leite é um veneno pra tosse! – Oi?! Desculpaê!

À medida que cresce o número de oferecimentos, cresce também aquela sensação de que a convivência com aquele que tosse beira o insuportável. Aumenta também o constrangimento por estar incomodando, aumenta a irritação de não conseguir se controlar, a dor de cabeça (parece que o cérebro balança dentro do crânio a cada crise), a dor nas costas e no abdômen... sem contar a dor moral, afinal, nada pior do que botar os bofes pra fora no meio das reuniões de trabalho e em ambientes coletivos – aqui, todo mundo acha que você está com gripe suína e começa abrir janelas e bisuntar álcool gel no corpo todo! Além de tudo, o mico.

Inversamente proporcional ao aumento da tosse ocorre a gradativa redução das noites de sono. Aliás, diga adeus a elas! Dormir bem se torna uma lembrança distante. Entre um cochilo e outro, lá vêm as sessões, involuntárias, de abdominais noturnos (ou seria: entre uma crise de tosse e outra, lá vem o cochilo involuntário, fruto de puro cansaço e esgotamento?).

No dia seguinte, mau humor, na certa! Mas é bom manter o sorrisinho no rosto pra agradecer delicada e educadamente a todas receitinhas de xaropes caseiros, xaropes de farmácia*, pastilhas, balinhas, tapinhas nas costas e aos votos por melhoras.

Ai, ai, a tosse... trazendo à tona a solidariedade dos seres humanos (mas só até começar a irritá-los! Daí é cada um por si e tampões de ouvidos para todos.)

Alguém tem uma receitinha aí?! Estou, há dias, com uma tosse dos diabos...

*os quais nenhum será aceito, afinal, medicamento, só com orientação médica, heim?! Não pioremos a situação!







domingo, 30 de maio de 2010

Café com leite ou leite com café?

Tão popular no Brasil quanto arroz com feijão, o pingado também tem lugar garantido no café da manhã de muitos brasileiros por aí. Tem aroma de casa de mãe, misturado com sabor de lembranças. Aposto que todos são capazes de associá-lo a alguma emoção.


A primeira pessoa que me vem à lembrança quando penso nessa bebida é minha vó. Ela era totalmente viciada no leite com café. Sim, leite com um pingo de café, bem clarinho, com muito, muito, muito açúcar e à 200ºC!! Uma coisinha tão simples, mas era uma dose instantânea de felicidade pra minha vovó. Assim como, o contrário, a ausência de uma boa xícara dessa bebida na horinha certa, era capaz de fazê-la esmorecer, beirando a depressão ou... dependendo de quanto tempo tivesse passado da hora... ela ficava num mau-humor galopante!


O vício foi devidamente repassado para todos os filhos. Quatro herdaram a preferência por leite com café e toneladas de açúcar, minha mãe, porém, contrariando a tradição da mãe dela, sempre preferiu o café com leite, com pouco açúcar, mas tão fumegante quanto vovó apreciava.

Os primos, todos, perpetuam a tradição. Já na minha casa... mamis não conseguiu cultivar esse gosto nas 2 filhas. Tanto eu quanto minha irmã fomos criadas à base do leite com Toddy (nenhum outro achocolatado... apenas Toddy, sempre Toddy!). Não tenho certeza do porquê: se por pura teimosia de criança que não gostava do sabor do pingado e se negava a tomá-lo ou se porque minha mãe não achava certo (como ainda não acha!) criança beber café, ainda que misturado ao leite.


Fato é que, até hoje, café com leite/leite com café não é minha bebida favorita. Pra mim, café é bebida nobre que merece ser saboreada pura, simples, foooorte (se fosse whisky seria cowboy!), morninho, acariciando cada uma das papilas gustativas. Mas, sabe como é, de vez em quando a genética fala mais alto e, para variar um pouquinho, preparo um café com leite (saudades da vó...). Entretanto, a influência materna dita a dose: mais café do que leite, sinalizando que mamãe não fracassou completamente na transmissão do valor!


Na última quinta-feira, 27, o Estadão (n° 245) dedicou seu caderno Paladar a essa bebida. Traz regrinhas para fazer um bom pingado, dentre as quais, a de que deve ser servido num copo americano (bem padoca, né?!) e que o melhor parceiro no café da manhã é um quentinho e cheiroso pão na chapa. Mas o que me chamou mais a atenção foram dois depoimentos: o de Patrícia Ferraz e o de Janaína Fidalgo. Ambas, de maneiras diferentes, associam o inocente pingadinho a trauma de infância porque as mães obrigavam-nas a tomar uma xícara toda manhã!! Eu e minha irmã não tivemos esse problema! Mas achei engraçado, porque café com leite, pra mim, é sinônimo de bebida de mãe e, pelo jeito, não só pra mim. Essa parece ser, então, a bebida oficial das mães... a preferência deve brotar junto com o instinto materno ou coisa assim.

Me pergunto se um dia, se mãe, virei a suspirar por uma xícara de café com leite. Será?! Continuo achando que café com leite ou leite com café está mais associado à emoção do que ao paladar.



domingo, 23 de maio de 2010

Virada Cultural 2010 - parte III de III

(...continuando)

A intensidade do sol piorava cada vez mais. Já a pino, algumas pessoas foram desistindo: bom porque assim cheguei à grade, mau porque ali nada me protegia do sol. Sorte que, mesmo o tempo tendo estado péssimo durante toda a semana, meu otimismo sagitariano me fez passar protetor solar 60 antes de sair de casa e, mais, me fez levar o potinho na bolsa para repassá-lo ao longo do dia.


O pastel, aquele singelo pastelzinho pingando óleo, já fora digerido e meu pobre estômago nem tinha esperanças de que fosse ver comida tão cedo. Além disso, por motivo já mencionado, não bebi nada de líquido desde a hora que saí de casa, às 7h... e o líquido, no caso, foi café! No entanto, mesmo que eu me dispusesse a beber água, cerveja, chimboquinha ou vinho Chapinha... não seria possível: os adegueiros ambulantes não chegavam à grade! A solução tanto pra fome quanto pra sede? Trident! Com um chicletinho aqui, outro ali, fui aguentando o dia todo.


O próximo show? Arnaldo Antunes com seu álbum Iê-iê-iê. Confesso que senti medo da reação da Avenida São João, afinal, o show anterior teve direito àquelas rodas de porrada (gigantesca!!), totalmente rock’n roll... daí chega o poeta e sua banda, toda de figurino, para derramar sobre o público canções totalmente conceituais. Mas, gênio é gênio! Além disso, nada supera a experiência! O senhor Antunes está há décadas na estrada e soube dominar não apenas o palco, mas principalmente o público que, mesmo não conhecendo todas as músicas, vibrou com todas elas. Eu, fãzaça, fiquei feliz por mim e por ele!! Ainda mais porque tocou uma das minhas músicas favoritas: ‘judiaria’. Uma versão hard core para o rei da dor de cotovelo, Lupicínio Rodrigues. Vale também mencionar que a presença do Edgard Scandurra, o dito virtuoso ex-guitarrista do Ira!, causou uma certa comoção nos saudosos fãs da banda que subiu no telhado. Como diria meu estimado Paulo Leminski: ‘O que vai embora não embolora’!


Findo o show... mais uma Era até o próximo. Nesse meio tempo algumas coisas. A primeira e mais importante: o baterista dos Raimundos* ficou para curtir os shows depois do dele e estava dando sopa na plateia VIP, o pessoalzinho que estava atrás de mim, chamou e o cara atendeu muito simpaticamente. Enquanto todos pediam fotos e autógrafos... a mim só interessava uma coisa ‘Posso te pedir uma coisa?’ ‘Claro, linda!’ ‘Me dá um gole da sua cerveja, pelo amor de Deus!’. Foi a cerveja mais gostosa que já bebi na minha vida. A sede estava me dominando! Vendo meu olhar de uva passa ele ofereceu a cerveja toda... lógico que não recusei!! Ah, que simpatia! Salvou minha vida! Também deram o ar da graça o Rafael Cortez do CQC, o Walace Lara (ou seria o César Trali?!) da Globo e a Cristiane Alcalá da TV Cultura, para quem concedi uma entrevistinha... mas só porque era para essa emissora e porque ela foi minha professora e orientadora na pós-graduação... hehehehe!!!


Uma vida e meia depois, os Titãs, os 4 que restaram (de uma banda que já foi de 8!), entraram no palco já com o céu escuro. A expectativa para esse show era a pior possível. Depois do CD Acústico, a banda, na minha pobre opinião, perdeu o rumo da prosa e descambou para um popzinho sem graça. Os shows não lembravam nem de longe os tempos de Titanomaquia e Domingo. Mas, porém, no entanto, todavia, qual não foi minha surpresa ao perceber que a banda acordou pra realidade (identidade) e estava mais rock’n roll do que nunca!! Uma sequencia inacreditável de músicas dos bons tempos: AA UU, Bichos Escrotos, Diversão, Pulso (com a histórica participação de Arnaldo Antunes!!), Cabeça Dinossauro (não acreditei!), 32 dentes (achei que a cerveja que bebi tinha alguma coisa que estava me provocando alucinações), Porrada (idem anterior, vezes 10 ao quadrado), Polícia, Vossa Excelência (essa mais recente, mas de conteúdo recheado de impropérios e chingamentos), Lugar nenhum, Televisão (numa versão 2010 totalmente roqueira, sem o ôôôôô!), Flores, Go back, Sonífera ilha (essas três bem mais tranquilas, momentos para respirar!) e mais algumas do novo CD, duas bem pesadas e duas mais baladinhas (cicatrizes! Perdoáveis em vista de todo o resto!). O show foi como há muito, muito, muito tempo não via. Valeu o sol na moringa, a fome, a desidratação, as 8 horas em pé! Saí de lá no bis (‘É preciso saber viver’) antes que o efeito rock passasse!


O percurso da grade ao fim da plateia parecia não ter fim! A Estação da Luz parecia que ficava em Changrilá! Andei, ande, andei, andei (pedi 39764789650475082374023984903490384093750748707603985093674039768930478407509457897304957980234394738567385t46587239 informações, afinal, me perco até na palma da minha mão!!), passei pelo caminho inverso da Estação Pinacoteca (onde comecei meu dia!) e finalmente cheguei na estação. Cansada, dolorida, desidratada, faminta, rouca, mas feliz por ter aproveitado pelo menos metade da Virada Cultural 2010.


Qual será a programação em 2011, heim?! Já estou contando os dias!


*Devo confessar que depois da 17859409893977ª formação dos Raimundos, parei de tentar guardar o nome dos integrantes, então só me lembro o de quem era da primeira formação. Desculpa, batera!!


PS1: a foto é da rua em frente à Estação Pinacoteca, de manhã tomada pela criançada e à noite, momento da foto, com apenas poucas pessoas, indo embora, marcando o final do evento... quase melancólico, não?!

PS2: passei quase toda a semana sem voz! efeito colateral!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Virada Cultural 2010 - parte II de III

(continuando!)

Já na China (sim, andei feito burro velho!) lá estava: o Palco Rock! O show da Pitty tinha acabado de acabar. Uns diziam que tinha sido um show animal, outros diziam coisas que não se diz nem a um animal (trocadilho ótemo!). Mesmo milhares de pessoas indo na direção oposta, ainda assim, a plateia desse palco estava absurdamente lotada. Dá um passinho aqui, outro ali, mais uma corridinha acolá e eu já estava há umas 20 fileiras de cabeças a partir da grade.
O próximo show era Ramones. Aaaaah, me deixem viver essa ilusão, por favor! Na verdade, segundo a programação, o show era ‘CPM22 (só Ramones)’. Cri nisso. Músicos no palco, ‘one-two-three-four’ no gogó e dá-lhe ‘Hey Ho, Let’s go!’. Infelizmente, 20 minutos depois eles já tinham tocado as 20 músicas do repertório previsto (Ramones, né?!), foi então que bateu o desespero. Badauí anuncia: ‘agora a gente vai tocar umas músicas nossas’. Nããããããão. Propaganda enganosa... quero meu dinheiro de volta! (?) O problema é que não tinha pra onde correr, literalmente. Pior: o povo que me cercava estava adoraaaaaaando. Medo, né?! Fui forte e aguentei. Quando acabou (ufa!), um longo intervalo para desmontagem/montagem dos equipamentos.
Enquanto isso, vendedores, com a força de 10 mamutes, circulavam irritantemente pra lá e pra cá com verdadeiras ‘adegas’ sobre a cabeça. Dentro daquelas caixas de isopor, havia uma diversidade de bebidas capaz de fazer inveja a muitas cartas de bebidas de muitos restaurantes (ah, tá!): vinho Chapinha (que os vinhos de verdade não me ouçam/leiam), Chimboquinha (oi?!), Ceveja (Brahma e Skol! ó!), Coca-Cola (zero e normal! uia!), Guaraná Antártica e água!! Ignorei todos, afinal, sigo a lei da ‘ação e reação’: cada ml de líquido ingerido se transforma, invariavelmente, em pipi, o qual precisa, necessariamente, urgentemente, sair de dentro de você uma hora ou outra... para isso, a única alternativa oferecida num evento desses é... banheiro-químico-depois-de-quase-24h-de-milhões-de-pessoas-passando-por-lá! Por esse prisma, uma possível desidratação no final do dia parece ser bem mais agradável, pois não?!
Algumas pessoas foram desistindo, outras chegando... e eu, andando, andando. Já estava a duas cabeças da grade. Sendo que uma dessas cabeças pertencia a uma menina totalmente chapada que queria, insistentemente, ver o oco.
Sim, o próximo show: Raimundos. Mais massacrantemente pesado do que nunca. Bacana, bacana. Era evidente que todos eles, os Raimundos, estavam muito felizes por estar ali, tocando para uma multidão que tomou conta de toda a e extensão da Avenida São João. E o Sol, lá no céu, quase a pino, tão animado quanto o povo lá embaixo. Já era possível sentir o cheiro de miolos bem-passados. (continua...)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Virada Cultural 2010 - Entre mamadeiras e cervejas – parte I de III


Minha Virada Cultural começou gastronômica (ou quase isso) ganhei um bolo do meu amigo, infelizmente o bolo não era do tipo que se come, mas do tipo que se lamenta. Aaaaaaaaah... Perdeu, amigo! O dia foi sensacional!!

Comecei os trabalhos no domingo. Aliás, um lindo domingo de Sol e céu azul. Primeira parada: Praça Júlio Prestes para ver/ouvir Palavra Cantada. Quem não conhece, pelo amor de Deus, não percam mais tempo e ouçam as lindas músicas desse grupo. Se você não é mais criança, um dia, certamente, já foi.
Liderado pelos simpáticos, graciosos e talentosos Sandra Perez e Paulo Tatit, esse grupo faz música para crianças (de todas as idades!) respeitando seu universo lúdico e inocente, mas também sua infinita inteligência em pleno desenvolvimento. Os arranjos são ótimos (impossível ouvir sem querer sair pulando e dançando!) e as letras são inteligentíssimas, fofas e engraçadinhas. Fiquem curiosos, coloquem ‘Palavra Cantada’ no youtube e comprovem o que estou dizendo*! Além do show que acontece no palco, outro acontece na platéia. Pais, mães, filhos, avôs, avós, netos e avulsos (eu!) cantam, pulam, dançam... todos com a mesma idade de criança. Uma viagem à aurora querida de todas as vidas. O cardápio?! Mamadeiras daqui, papinhas dali, pacotes de bolacha divididos por todos ao redor (afinal, criança, quando vê, fica com vontade, né?!), algodão doce melando eternamente mãozinhas e cabelos.

Findo esse espetáculo, saí sem rumo. Passei em frente minha casa (também conhecida como Pinacoteca do Estado de São Paulo) onde a apresentação da Banda Sinfônica do Estado estava no clímax. Coisa linda de se ouvir (e ver, dada a grandiosidade do grupeto). Ali parei por alguns minutos e, enquanto mascava um dos 1245789563 Trident do dia, pensei em como é linda a cidade de São Paulo e como esse evento casa-se perfeitamente com a diversidade de absolutamente tudo que há por lá.
Parte do público dormia, parte acordava. Esses porque levantaram cedinho pra curtir o dia e aqueles porque curtiram desde de ontem e não resistiram à boa música (canção de ninar, ainda que fosse heavy metal!!) e às convidativas cadeiras para puxar um ronquinho e recarregar as baterias para mais uma rodada de shows (e, muito provavelmente, de vinho barato... desse falarei mais adiante!). Eu, fazendo parte do grupo que acordava mais a cada minuto, resolvi botar as perninhas para trabalhar.

Atravessei a Estação da Luz: pessoas indo trabalhar, chegando do trabalho, voltando da Virada, chegando na Virada, todos juntos, cada um pro seu lado. No lindo (lindo mesmo) hall da estação, pianistas amadores dedilhavam notas a duas, quatro, seis (!) mãos! Era música?! Claro que sim!
Na rua oposta à minha casa (seria a Cásper Líbero?!), estava o Palco dos Independentes... de lá vinha um som que me parecia familiar: ‘...mas como pode ser isso?! Ouço pandeiros e cavaquinhos e, ainda assim, isso parece com alguma coisa que conheço?! Estou eu virando pagodeira?!’ ...passados os segundos de surto, constatei: ouvia 'Another Brick in the Wall' numa versão pagode... pa-go-de! A quadrilha que tocava isso era o Sambô. Ui! Continuei andando, antes que a coisa piorasse.

No meio do caminho tinha... uma feira! A vida cotidiana acontecendo em pleno fim de semana de Virada Cultural. Naquela rua, senhorinhos e senhorinhas arrastavam seus carrinhos com suas frescas provisões, na calma tranquilidade das manhãs de domingo. Uma ilha de cotidiano em pleno caos cultural. Tudo normal, não fosse... a barraca de pastel! Sim, o pastel de feira, capaz de unir gregos e troianos, patrões e empregados e, durante aquele dia, também roqueiros, pagodeiros, baladeiros, bêbados, mendigos. Ao redor da barraca, todo esse pessoal gritava pedindo o pastel escolhido: ‘Bauru! Pizza! Carne! Queijo! Camarão! Frango com catupiry!’ ‘Come aqui ou pra viagem?!’... tudo numa sintonia digna de um antigo pregão da Bovespa. Todos se entendiam, todos saiam satisfeitos. Inclusive eu, oras! Garanti meu almoço às 10h30, afinal, não sabia quando poderia comer novamente. De pastel no estômago, continuei andando.

Já nos arredores da Galeria do Rock, o público era o extremo oposto daquele da Palavra Cantada. Uma roda de capoeira acontecia ante uma plateia atenta e/ou sonolenta, sóbria e/ou bêbada. Mais a frente, legítimos índios da tribo ’25 de março’ faziam seu sonzinho em troca de uns trocados. Tanto a roda quanto a tribo nunca devem ter tido plateia tão volumosa!
(continua...)

*...ou não, gosto não se discute, né?!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Virada (de sono) Cultural 2010


Esse foi o fim de semana da Virada Cultural em São Paulo. Cheguei tarde em casa totalmente esgotada, sem a menor condição de digitar uma frase se quer, maaaaaaaas prometo que durante essa semana postarei relato detalhadíssimo de minhas aventuras nesse evento inacreditável!!
Aguardem!! hehehe

domingo, 9 de maio de 2010

Fast food?!

- Bom dia! Vai pagar em dinheiro ou cartão?

- Bom dia!!! Ainda não sei... Acho que em dinheiro. Não, cartão! Dinheiro! Cartão, cartão!

- CPF na nota, senhora?

- Será?! Não sei. Quero! Quero sim!

- Pode falar.

- 29...34...78... não... 29...24...48...98736

- CPF inválido, senhora.

- De novo: 2924489...9 ou 8? Espera, deu branco! Vou pegar o CPF na bolsa... um segundinho!

- (...)

- Mas onde foi que eu coloquei aquele danadinho? Estava aqui até ontem! (...) Ah, troquei de bolsa e acho que deixei na outra. Que pena! Faz sem CPF mesmo.

- (respira fundo) Pode fazer o pedido.

- Sabe, ainda não me decidi! O que você me recomenda?!

- (conta até 10) Big Mc, batata grande, refrigerante grande?

- Não, não, tudo muito grande... estou com pouca fome...

- Cheese burger, batata pequena, refrigerante pequeno?

- Hummm, talvez... como é o cheeseburger?

- Basicamente hamburguer e queijo (dã!)

- Ah, é mesmo! Cheeeeeeese e burger!! Entendi! Mas não, muito simplesinho. Quero algo um pouco menos vulgar...

- Quer olhar nosso cardápio, senhora?

- Não, não! Confio em você! Além disso, estou sem meus óculos, não estou enxergando nada! Aquele ali da foto, bonitão, qual é?

- Cheddar Mc Melt, senhora.

- Hummm, parece bom. O cheddar que você diz é queijo cheddar?

- Exatamente, senhora. Batata e refrigerante?

- Queijo cheddar e o que mais?

- Hamburguer, picles, catchup, mostarda, cebola dourada no shoyo e pão. Batata e refrigerante?

- Hummm, parece bom! Acho que vou querer esse.

- (bufando) Batata e refrigerante?

- Não, não, só o lanche, querida! Estou com pouca fome.

- CHEDDAR AQUI (gritando para colocarem logo na bandeja)

- Já está pronto? É aquele ali? Não, não... pede pra fazer o meu sem cebola, por gentileza! Detesto cebola!

- CHEDDAR ESPECIAL SEM CEBOLA! (quase histérica)

- E sem mostarda, tá? Destesto mostarda!

-CHEDARESPECIALSEMCEBOLAESEMMOSTARDA... MAIS ALGUMA COISA, SENHORA? (gritando como se a senhora estivesse a 1 km de distância)

- Deixa ver... hummm... não, não... é só isso, mesmo!

- R$ 5.

- Eu tinha falado dinheiro ou cartão?

- Cartão.

- Aqui.

- Débito ou crédito?

- Dédito. Não, crédito. Débito, débito!

- Débito, senhora?

- Isso mesmo. Foi o que eu disse!

- Pode colocar a senha.

- (129877? Não... 127798... 981277? 978721?) Xi, esqueci minha senha! Bloqueei meu cartão! Poxa vida! Tá aqui, ó, vou pagar em dinheiro.

- (grrrrrr) Não tem mais trocado, senhora?

- Não!

- PRECISO DE TROCO PRA 100! (gritando bem mais do que o necessário, já que a gerente estava ali do ladinho)

- (...)

- Seu troco, seu lanche (graças a Deus!).

- Ah, vou querer pra viagem!

- (jogando o lanche no saco de papel)

- Obrigada, querida! Deixa ver seu nominho... adorei você, sempre que vier aqui, faço questão de ser atendida por você! Tchau-tchau!

*

No dia seguinte a atendente pediu demissão.


domingo, 2 de maio de 2010

Origami na ponta do garfo


Uma das regrinhas de etiqueta à mesa que parece ser a coisa mais simples do mundo, mas que pode complicar a vida dos menos habilidosos é aquela que se refere às folhas de verdura. Diz-se que nunca, jamais, de maneira nenhuma, de forma alguma você deve cortar folhas de verduras no prato para levá-las à boca. Ou seja, ainda que você esteja diante de uma folha do tamanho de uma orelha de elefante, você terá de se lascar para enfiá-la inteira na boca, de uma vez, sob pena de ser execrado publicamente por algum fiscal da moral e dos bons costumes à mesa (geralmente quem exerce esse simpático papel é aquela tia chata que acha que é rica, aquele primo metido à besta, ou aquele cunhado que não perderia, por nada nessa vida, a oportunidade de fazer você passar um ridículo).


Se não se pode/deve cortar, o jeito então é dobrar. Taí, talvez o mérito do feito fique por conta da habilidade de conseguir fazer tantas dobras quantas forem necessárias para fazer com que uma folha inteira caiba numa única bocada. Não parece coisa muito complicada, pois não?! Mais ou menos.


Quando a salada é sua, você até consegue ter o domínio da situação. No preparo, tira os talos aqui, rasga as folhas grandes ali e pronto, com apenas algumas viradinhas no garfo, já é possível comer a salada sem que se pareça um cavalo comendo capim: metade pra dentro, metade pra fora.


O problema é quando se encontra algum sádico por aí que resolve colocar todas as folhas inteiras na saladeira: rúculas com talos de 2 metros, agriões com 45 ramificações de talos, alface americana que mais parece uma tigela, alface crespa com 3 metros de comprimento por 17,5 de envergadura. Uma complicação que só vendo... comendo.


A rúcula é minha cruz pessoal. Adoro, mas só Deus sabe a briga que travo com seu talo cada vez que ela vai parar no meu prato. A parte da folha é facilmente manipulável, mas o talo é de uma teimosia irritante. Eu dobro, ele volta, dobro de novo, ele volta de novo, quando acho que o venci e estou levando a ruculíssima à boca, pimba!, o talo desenrola e fica pra fora da boca! Situação de pânico. O que fazer?! Tirar a folha toda? Enfiar o talo com a mão? Seja lá qual for a escolha, a cena certamente será ridícula.


O agrião não fica muito atrás no nível de dificuldade, afinal, se perde no comprimento, ganha na quantidade de talos. Dobrar tudo aquilo requer paciência de monge!


Alface americana: somente o imperialismo norte-americano explicaria a presença dessa alface sem gosto e sem graça em praticamente todos os buffets de salada da Terra!! Para começar, ela é praticamente 100% talo. Isso aumenta enormemente a dificuldade de dobrar suas folhas. Quando o sádico em questão resolve colocá-la inteira na saladeira, instala-se o caos. Ela é quase uma folha de repolho!! Quem faria uma salada com folhas inteiras de repolho?!


A alface crespa parece inofensiva, mas quando não é previamente rasgada, torna-se um desafio hercúleo dobrá-la no prato. Seu tamanho costuma variar muito, então há casos em que se pode estar diante da tal orelha de elefante mencionada anteriormente. Dobra aqui, puxa ali, prende esse ladinho, segura aquele ali... quando vai ver, tem-se um lindo origami de alface na ponta do garfo... dá até dó de comer!!


Longe de ser um comportamento selvagem, como palitar os dentes em público* (hehehehe), não cortar ou cortar a verdura não irá torná-lo um ser humano melhor ou pior, mas é um primeiro passo rumo à aristocracia, às altas rodas da sociedade, à realeza (ah, tá!). Ok, não aumenta os valores da sua conta bancária, mas também não custa nada fazer bonitinho à mesa, né não?!


Para que a vida das pessoas fique um pouquinho mais fácil, não custa nada deixar aqui um singelo apelo: oh grandes e pequenos saladeiros do mundo, ao preparar uma salada, por misericórdia, rasguem as folhas e tirem os talos das verduras para não fazer da refeição uma aula de origami!!



*aquele artifício de colocar a mãozinha na frente da boca na tentativa ineficaz de disfarçar o que acontece ali atrás só chama ainda mais atenção. Melhor mesmo é, de boca fechada, ir ao banheiro, trancar-se lá e só voltar quando puder sorrir novamente!